Em meio à festa pela escolha do Rio de Janeiro como sede das Olimpíadas de 2016, muitas perguntas não saem da cabeça dos brasileiros. Será o Brasil capaz de corresponder às expectativas do Mundo em torno dos Jogos? O Rio de Janeiro estará pronto em sete anos? E os gastos financeiros em instalações esportivas e infraestrutura, que esbarram na casa dos R$ 30 bilhões, deixarão algum legado para o povo no pós-jogos?

Para responder essas e outras perguntas, A Gazeta, de Vitória, ES, conversou com João Henrique Areias, um dos precursores do marketing esportivo no país, com experiência na gestão de esportes olímpicos e agora candidato à presidência do Flamengo.

Para Areias, a realização da Copa do Mundo e das Olimpíadas levará o Brasil ao primeiro mundo do esporte. Ele garante que os Jogos de 2016 serão mais importantes que o petróleo para o Rio. E também dá ideias de como o Espírito Santo pode se beneficiar com os Jogos.
Até 2016, quando o Rio de Janeiro será a sede dos Jogos, serão sete anos de muito trabalho. É tempo suficiente para se transformar uma cidade e deixá-la em condição de receber uma Olimpíada?
Sim. Esportivamente porque já temos os locais definidos, com boa parte das instalações prontas. Esse é o menor problema. O desafio são as mudanças sociais, no que se refere à cidade em si: seus serviços, trânsito e segurança. Isso preocupa. Mas tenho certeza de que agora, com os Governos Municipal e Federal aliados, ficará mais fácil. O Rio entrou nas cinzas em 1960, quando perdeu o status de capital federal para Brasília. O Estado não foi preparado para perder a infraestrutura que até então merecia. De lá para cá, a decadência política, social e econômica aconteceu. Com o petróleo, ajudou um pouco, mas aposto que o esporte será melhor, pois te dá uma dimensão além da econômica, com a parte social, graças a mensagens de educação e meio ambiente. A Olimpíada será o melhor veículo de comunicação, além de saírmos da monocultura do futebol. Hoje, é difícil para a criança que não sabe jogar futebol ou vôlei ser atleta no Brasil.

Barcelona se deu bem com as Olimpíadas, sofrendo uma transformação. Mas também existem exemplos de que os Jogos trazem dívidas que serão pagas por gerações futuras. Como será com o Rio?
Conheci Barcelona antes e depois das Olimpíadas. Mudou demais. Era uma cidade virada para dentro. De costas para o mar. Digo até que não era bonita. A partir dos Jogos Olímpicos, com um plano de reorganização, a cidade se voltou para o mar e até hoje a população agradece. Em Los Angeles, 1984, os americanos não queriam os Jogos. Isso porque, oito anos antes, em Montreal-1976, ficou uma conta alta, paga pelo contribuinte canadense até o ano de 2002. Até então, quem bancava os Jogos era o governo. Assim, Peter Ueberroth, um empreendedor, advogado de formação, fez um plano de marketing e trouxe as empresas privadas para o circuito olímpico. Los Angeles-84 foi a primeira Olimpíada que deu lucro. Se não fosse bom, ninguém iria querer hoje em dia. O Rio pode lucrar com os Jogos. Quanto o Rio gastaria com publicidade para ter a mesma repercussão – que terá e já teve – espontânea, com os Jogos?

Você acredita que a burocracia brasileira pode atrasar o repasse das verbas e colocar em xeque a entrega das instalações esportivas?
Dessa vez acho que vai funcionar porque o interesse é do país. E não só do Rio de Janeiro. Essa década de eventos coloca o Brasil, pelo menos no âmbito esportivo e econômico, no primeiro mundo. E você não pode ficar sujeito a escândalos por atraso de verba, senão mostra ineficiência da empresa chamada Brasil. O país precisa se mostrar eficiente para continuar ganhando mercado.

Há espaço para a corrupção num evento tão vigiado, seja pelo povo seja pelo Comitê Olímpico Internacional, sempre presente?
Vejo algumas iniciativas para controlar os recursos. Sempre tem essa história. O Brasil é assim. Temos que ficar atentos. Cabe à sociedade essa fiscalização. Não se pode esperar iniciativas do governo. As pessoas que estarão mexendo com recursos públicos deverão prestar conta de cada centavo e mostrar para onde foi. O COI também não tem interesse em sujar a imagem dos Jogos. Já é um grande produto. Qualquer coisa errada mancha a grandeza do produto deles.

A curiosidade faz com que o brasileiro já comece a estimar o preço dos ingressos para os Jogos. Há como fazer uma estimativa, para a festa de abertura, finais e a cerimônia de encerramento?
O mais fácil é pegar quanto custaram esses eventos, em dólares, em Pequim, que foram os últimos Jogos, e fazer uma projeção de 5% ao ano. Se em 2008 custou X e 2012, em Londres, custará Y, até 2016 teríamos um grande aumento. Mas isso também vai de acordo com a demanda dos Jogos e de cada competição. Algumas, com certeza, serão mais caras, outras, mais baratas. Fica difícil de se prever com sete anos de antecedência. Isso fica por conta dos economistas (risos).

Nota: Nos Jogos de Pequim o preço inicial de um ingresso para a cerimônia de abertura era de 5,1 mil yuans, cerca de R$ 1,2 mil, mas depois chegou a 210 mil yuans, cerca de R$ 51 mil, em sites da Internet.

Qual é o real legado que as Olimpíadas podem deixar para o Brasil?
A consciência do esporte como um veículo de integração e educação de pessoas. Não são só coisas materiais. Você terá metrô, vias, mas o principal é a festa que vão ser os próprios Jogos, com turistas aqui e o mundo inteiro olhando para o Rio de Janeiro e para o Brasil. O taxista vai falar inglês, espanhol… É essa herança cultural que temos de buscar. Isso transforma gerações futuras. Melhora a qualidade de vida de um povo através de cultura. São quase 200 países competindo. É muito ensinamento. As Olimpíadas deixarão muitas heranças para o Brasil

O legado das Olimpíadas vai respingar em outros Estados? Seja no esporte ou socialmente?
Primeiro cria-se uma consciência esportiva onde se aumenta a capacidade de captação de recursos. As empresas vão passar a apoiar o esporte nos seus Estados. E outra: o Espírito Santo, por exemplo, é do lado do Rio de Janeiro. Desde agora, é preciso levar eventos com atletas olímpicos para os Estados. Pegar carona mesmo. Fazer um calendário de eventos olímpicos nos Estados até 2016. A imprensa já está dando mais espaço para isso. É só aproveitar a onda. Mas tem que ser rápido. É preciso também se preparar para receber esses eventos. É preciso ter boas arenas. Se o Diego Hypólito está no Espírito Santo, o mundo estará voltado para aí. E, socialmente, ao invés de ficar na rua, olhando as drogas, a criança vai se espelhar nos atletas e querer ser igual a eles. Isso no Rio de Janeiro ou no Amazonas, em qualquer lugar.

Como os clubes devem se preparar para a captação de recursos para formação de novos atletas visando a 2016, com recursos oriundos do governo federal, já que a intenção é formar atletas e transformar o Brasil numa potência olímpica?
Hoje os clubes não estão capacitados. A maioria não está. É preciso mudar o modelo de gestão dos clubes. O dirigente que hoje é voluntário precisa passar a ser profissional. O voluntário tem poder, mas não tem responsabilidade para cumprir horário e gastos. Para isso é preciso trazer gente formada em cursos especializados. E são poucos profissionais nessa área. Quem quiser trabalhar com esporte precisa se preparar nesses cursos. Senão teremos bons profissionais dentro das quadras e ruins fora delas. Se isso for feito, clubes que hoje têm déficit, podem ter superávit até 2016. Sem dúvida.

Como os clubes podem ter retorno financeiro?
De várias maneiras. Na parte esportiva, os clubes vão montar equipes e teremos um mercado de patrocinadores, empresas sedentas em patrocinar o esporte. Vai ser latente para qualquer empresário. Mas ele não sabe como investir. Do lado do esporte é preciso saber qual é a necessidade de comunicação da empresa, para oferecer seus produtos. Nós vivemos a indústria do bem-estar. Quem tem o know-how de educação física? Os clubes. Aqueles que se posicionarem como aldeias do bem-estar se darão bem. Um exemplo: o Álvares Cabral, aí do Espírito Santo, pode – por que não? – dizer: de 8 meses a 88 anos, venha aqui para o Álvares Cabral, pois saberemos como te atender esportivamente. E isso gera dividendos.

Números olímpicos
R$ 30 bilhões
É o valor do investimento público previsto para os Jogos, sendo 72% em infraestrutura.

R$ 100 bilhões
É o investimento privado previsto para a Olimpíada.

R$ 200 milhões
É quanto será investido em divulgação do Brasil no exterior a partir de 2010, num crescimento de 50%.

40 mil leitos
São necessários para atender aos turistas

120 mil empregos
Serão gerados entre 2009 e 2016, na preparação da infraestrutura para os Jogos