Alexandre Mignoni 

Enfim, depois de relutar muito, parece que, finalmente, começo a aceitar que, citando Rubem Alves: “aceito que terei menos tempo para viver daqui para frente do que já vivi até agora”. A terceira idade vem vindo voando, e com Jensnon Button ao volante. Daí que o tempo já me impõe certas limitações. Nos esportes, por exemplo, eu que já surfei (tinha uma prancha K & K), lutei judô, joguei muito basquete e futebol (segundo papai eu era um craque), fiz rafting e rappel (tenho provas), agora me dedico a outras modalidades assim, digamos… mais amenas, onde o esforço físico já  não se faz tão necessário. Caso do poker, do par ou impar e da porrinha.

Como é muito próprio dessa meia idade chata, ando meio reflexivo e dado a lembranças saudosistas dos tempos de infância, um sintoma gravíssimo de terceridadismo. Lembrei-me outro dia de que sempre saía para pescar com meu velho, nos verões de Marataizes.  Lembrança boa: Seu Zé Américo, praia, sol, mar, contato com a natureza, essas coisas. E resolvi virar pescador.  Conversei com uns e outros, peguei umas dicas, observei o povo na praia, vasculhei a internet. Beleza. Agora é só comprar uma vara, um molinete e mudar de vida.

Já na loja especializada veio a primeira surpresa. A terminologia aplicada ao esporte da linha e do bambu mudou muito de uns tempos pra cá. Termos como casting, backing, blacklash, embodocar e catimbinha agora fazem parte do dicionário básico do pescador. E os equipamentos? Vara de fibra de carbono, molinete de num sei quantos rolamentos, facas, alicates e o tal elastricot. Heim? É uma linhazinha para prender o camarão no anzol. Duzentos e trinta e sete tipos de chumbo: bala, toperdo, carambola, pirâmide. E as iscas de hoje em dia… corrupto, canivete, budigão. Ou seja, limaram a minhoca! Levei quase três horas e gastei três vezes mais do esperava, mas saí da loja com o material todo e pronto para me tornar um pescador.

Sábado cedinho, calor senegalês, tudo certinho. Parti pra praia. Procurei um canto mais afastado e com pouca gente. Nenhum pescador no local. Ótimo, pensei. Se eu der um vexame, ninguém vai ver. Na primeira viagem, sim era muita tralha, levei o guarda sol e a cadeira.  Cavei um buraco enorme, enterrei o guarda sol, ajeitei a cadeira e voltei pra pegar o resto do material composto por: vara retrátil, molinete, maleta com chumbos, anzóis, grampos, linhas, etc. E ainda uma outra sacola com celular, carteira e outras cositas más, de forma que eu estava com as duas mãos ocupadas e ainda cheio de coisas debaixo do braço, quando passou por mim a cerca de 150 km por hora o meu velho e enferrujado guarda-sol da Brahma.  E voava alto… e dava aquelas piruetas que nem a Daiane do Santos. E eu pensei: meu deus do céu vai matar alguém! Completamente imóvel e rezando para que a barraca voadora não acertasse ninguém, eu não sabia se largava as coisas e corria atrás do guarda-sol (esporte de mineiro), ou se voltava para casa. Confesso, meu primeiro impulso foi fingir que barraca assassina não era minha, sair de fininho e adiar a pescaria.

Mas um vendedor de picolé apareceu para me salvar. Largou o carrinho e partiu atrás do guarda-sol descontrolado. E quanto mais o cara corria, mais o vento dava. E quando ele estava chegando perto, entrava uma rajada mais forte e levava a barraca pra longe. E a bicha voava… Mas o cabra era brasileiro, pegou, domou e trouxe de volta.  Agradeci, e quando meti a mão no bolso para pegar uns trocados e comprar um picolé, em retribuição ao esforço do resfolegante vendedor, percebi que, além de não ter nada no bolso, também a minha carteira estava completamente vazia. Ahham! E o sol queimando. E eu ali sozinho. E o vento ventando.

Guarda sol de novo enterrado, dessa vez com reforço estrutural, demos início ao processo de montagem do equipamento. Já passava das oito e comecei a sentir sede. Pero… No havia la plata! Ainda bem que me lembrei de levar meus óculos de grau (os de sol eu esqueci). Se não, ao invés de uma, teria levado pelo menos três horas para passar aquela linha de quase invisível, por dentro de cada maldito buraco, de cada maldito anzol. Foi um teste de paciência, mas eu venci. No meio desse processo, por inexperiência e completa falta de jeito, nem percebi que o meu molinete novinho ficou em contato com a areia. Depois de montado o equipamento o bicho parecia um bife a milanesa. Com muita vergonha, dei umas batidinhas para limpar o meu reluzente molinete e fui procurar o tal descanso ou o suporte para colocar a vara. Revirei toda a tralha e nada! Vai vendo… sem óculos escuros, protetor solar nem pensar, com sede, sem dinheiro…e agora sem o indispensável suporte da vara.

A essa altura eu comecei a questionar a tal frase que de vez em quando a gente vê por aí: Ta nervoso, vai pescar! Sei. Mas o melhor ainda estava por vir. Já passava das dez e eu tinha chegado à praia bem antes das oito. Como eu não tinha levado um isopor, o pote com iscas ficou no sol mesmo, de forma que, quando eu abri o recipiente um enxame de moscas tomou conta do local. Espantando as simpáticas mosquinhas no tapa, consegui pegar um ex-camarão para espetar no anzol. Como não dava pra fazer isso segurado a vara, resolvi fincar a vara na areia e usei toda a minha força pra isso. Passou pela minha cabeça uma cena épica de um conquistador fincando uma bandeira no solo pelo qual havia derramado sangue. Significava também um momento de rompimento. Um basta! Do tipo: chega! Daqui pra frente vai dar tudo certo. Hum… quanta bobagem. Retrátil, uma parte da vara cedeu, quase esmagando meu dedo. Minha raiva era tanta que joguei tudo no chão. Melhor, tentei. Por que um anzol fisgou minha camisa, derrubou meus óculos e a vara voltou na minha cara. Que cena patética.

Resolvi sentar um pouco para aplacar minha ira. Minha nuca e minhas orelhas ardiam. Aquelas moscas enchendo o meu saco. Meu dedo doendo. Sede. Uma catinga dos infernos. Meu celular tocou. Alô! Era… a cobrar e eu desliguei. Peguei um cigarro. Eu sei, faz mal, eu to parando, mas eu precisava daquele cigarrinho. Bati no bolso e nada. Procurei nas bolsas e nada. Sem fósforos, isqueiro ou qualquer objeto capaz de produzir faíscas. Olhei pro quiosque no calçadão, fechado. Quando percebi nesse momento a volta do meu amigo vendedor de picolé, não tive nenhuma dúvida: ta vendo essa merda dessa vara com essa merda desse molinete, essa barraca assassina, essa cadeira de praia e essa tralha toda aqui? Leva tudo pra você! “Mas moço…” É tudo seu. E me da um de côco que eu vou embora. “Mas seu moço, o picolé acabou”… Então me da tudo volta e vaza daqui. Ta pensando o que rapá, esse material é meu!