Isa.

E lá estávamos nós, caídos, feridos, agonizantes em nossos últimos momentos de vida.

Aquela cena em que o frágil corpo de uma menina de cinco anos dava seus últimos suspiros numa trágica noite de sábado poderia representar não somente o ponto final colocado em uma vida que, certamente, poderia ter sido bem mais feliz.

Aquela sucessão de fatos funestos nos mostrou não existir crime perfeito, mas a imperfeição de nossos sistemas investigativos bem que poderia criar um.

Mas o delicado ser estendido no gramado do pátio daquele prédio de classe média-alta ainda representava algo mais.
Se perscrutarmos nossa existência, poderemos perceber quantas e quantas “Isabellas” são lançadas janelas abaixo todos os dias. Não, isso não é uma forma de pieguice inoportuna. Refiro-me a todas as formas de se valer da supremacia da força desproporcional e da falta de humanidade e civilidade para submeter, atacar, torturar e aniquilar àqueles que estão sob sua guarda.

Peço licença ao puro e limitado bom senso. Muito mais que uma vítima de um crime bárbaro, podemos ver na figura daquele corpo padecente, uma figura emblemática.
Todas as vezes que a sociedade corre o risco de ser lesada pela ineficácia de nossas leis, pela impunidade de todos os criminosos, pela desfaçatez e impudência de nossos políticos devassos, ali estamos nós, dependurados pela grade da decência, seguros apenas por uma mão, uma mão que vai fraquejando aos poucos, fraquejando mais pela imoralidade e depravação do que pela falta de energia, mais pela perversidade do que pelo descuido.

É isso! Estamos sendo seguros apenas pela mão que tenta nos posicionar para uma queda melhor. Melhor? Sim melhor! Melhor para quem? Com certeza não para nós.

Somos a Isabella nas mãos de nosso guardião. E o nosso protetor nos fere, dia a dia. Aquele a quem confiamos nossa segurança, nossa educação, nossa saúde, nosso bem-estar e nosso futuro, nos fere mortalmente, nos humilha, nos assusta e precipita-nos sem compaixão. Mas nós temos nossas vistas ofuscadas pela ignorância. Não vemos que o fato de ficarmos na frente da casa da família de um putativo pai assassino, clamando por justiça, justiça essa que é esquecida por essa mesma ignorância e nos faz atirar pedras em alguém que não é culpado ainda, não trará de volta a linda menina.

“- Mas temos que reclamar contra a violência!” – dirá o combatente cidadão pagador de promessas e de impostos.

Isto sim! Temos que reclamar. Nas ruas, nas urnas, câmaras, assembléias, congresso e, se possível, em frente às casas de nossos algozes.

São esses que precisam ouvir nossas vozes. Porque torcem para que fiquemos na frente de nossas TV’s e na frente de casas vazias, gritando palavras de ordem movidas pela indignação, enquanto a nossa embaraçada polícia interroga, testa, fotografa, reconstitui e não conclui.

A justiça tem que ser feita, mas tem que ser feita com nossa iniciativa. Se diariamente estamos vulneráveis à nossa ruína pelas mãos daqueles os quais elegemos nossos tutores, vamos reclamar antes que venha a bofetada, a esganadura e a queda.

Não sejamos mais pobres menininhas nas garras de nossos lobos-maus. Não sejamos parte das estatísticas de um povo estático e submisso que chora a dor das mágoas e dos poli-traumatismos da falta de vergonha.

Pobre Isabella, não pôde escolher seu futuro. Pobre Isabella, não pôde se desvencilhar de sua sina. Mas nós, “Isabellas” de um país emergente economicamente e decadente moralmente, ainda temos um fio de esperança. Somos filhos de uma Nação permanente de guardas provisórias. Nas eleições temos a chance de alternar nossos guardiões. Mas se mesmo assim formos colocados pendentes nas janelas da vergonha, respiremos fundo. Vamos retirar do fundo de nosso imo, das profundezas de nossa alma, uma réstia de forças e, olhando nos olhos de nosso traidor com a ira que nos for possível naquele momento, juntemos coragem para erguermos nosso braço recém liberado e segurando o colarinho branco daquele canalha, dizer entre os dentes: – Eu vou, mas você vem comigo!!!

Joel Schaeffer

 - Joel é escritor de final de semana, crítico (até por que crítico qualquer um pode ser), comentarista da vida alheia e…huuuummmm, bom,  Joel é um bosta qualquer. (José Ronaldo Couto)