A Gazeta | Claudia Feliz | cfeliz@redegazeta.com.br | 28/6/2009 |

“Quem gosta do que faz atinge o sucesso”

Pouco tempo ao lado de Mauricio de Sousa nos faz vê-lo como um jovem cheio de planos, sem medo do novo. Um jovem de 73 anos de idade, pronto para ampliar seus domínios no campo da diversão e do entretenimento. Consciente de que é preciso ampliar o acesso das crianças à pré-escola, seu foco agora é a Educação. Seus olhos brilham quando ele fala dos muitos projetos que estão por vir, turbinados pelo que há de mais avançado na área da tecnologia, da qual o cartunista, que está fazendo 50 anos de carreira, é grande defensor e usuário. Não por acaso, esse homem, já chamado de Walt Disney brasileiro, acaba de aderir ao Twitter.

Com pouco mais de 20 anos de idade, quando começou a publicar quadrinhos, imaginava que seu trabalho iria alcançar tamanha dimensão?
Tinha uma visão de futuro, de tudo que iria acontecer – menos da internet. História em quadrinhos, desenho animado, filmes… Mas ninguém planeja: “Vou dominar o mundo”. É possível apenas pensar: “Vou estudar e fazer o melhor”. Qualquer pessoa que estude, e faça o que gosta, vai realizar um projeto que resultará em sucesso. Não inventei nada. Vi o que faziam lá fora e dizia pra mim: “Vou fazer isso também”. Só não sabia que no Brasil nada do que eu queria fazer era possível, na época.
Por quê?
Não havia história, não havia tradição, não havia personagem brasileiro. Mas, como não sabia das barreiras, fui fazendo. Abriram a porta pra mim e eu larguei. E tem tanta coisa que eu ainda planejo fazer…

O que faz parte dos seus planos?
Muita coisa… Mas há aquelas que não posso revelar agora. Bem, o que posso dizer é que para a próxima década vamos direcionar alguns dos nossos produtos com o foco na Educação. Há algum tempo procurei autoridades brasileiras para tentar ajudar num problema terrível. É que 12 milhões de crianças no Brasil têm acesso à chamada pré-escola, e 14 milhões não têm. Chegam à escola sem saber pegar num lápis. Essas crianças despreparadas atrasam as outras em um ou dois anos. E daí vêm evasão, desconforto, desânimo. Eu quero criar uma série de filmes com programas como a Vila Sésamo, que funcionem atendendo às crianças que não têm acesso à pré-escola, mas têm televisão em casa. Montar um show de educação, com base no currículo do Ministério da Educação. A China já me abriu as portas para fazer isso. Vamos atuar como auxiliares da Educação formal. Vamos também atuar na área de livros didáticos ou paradidáticos, e em todos os nossos produtos, com orientação dos nossos pedagogos, vamos ter uma visão voltada para a Educação.

Com 50 anos de atividade profissional, aos 73 anos, o senhor demonstra ter uma capacidade produtiva ainda muito grande. O que acha que o faz ser tão diferente, tão inventivo e produtivo?
E eu sei (risos)? Acho que é porque gosto do que faço. Talvez sejam minhas origens, meu DNA familiar. Meu pai era artista: poeta, pintor, desenhista, barbeiro nas horas vagas – porque ganhar dinheiro era preciso, e arte não dava dinheiro. Mamãe era poetisa, e cantava. Papai fazia música; minha avó contava histórias muito bem – toda noite eu ouvia uma história diferente. Meu avô contava lorota muito bem; meu bisavô tocava viola, e me ensinou a tocar e a cantar. Um outro tio me ensinou a desenhar super-heróis. Minha família me dava gibis – não era proibido, ninguém tinha preconceito contra história em quadrinhos lá em casa. Fui criado em cidade do interior, brincando com gente de todo tipo, de toda raça. Era de classe média baixa, o que é ótimo, porque você tem ambições e possibilidades. As sementes que me geraram, acho que tinham que dar alguém como eu, que não tem medo de ousar, de pensar adiante.

O senhor publicou suas primeiras tirinhas em jornal. O que o motivou?
Naquela época a tirinha era a rainha. Eu me lembro que o Recruta Zero vendia uma tira diária para 1.700 jornais, e ganhava um dólar por jornal. Quando soube daquilo, disse: “Eu quero fazer isso”. Mas só não sabia que não existia o sistema de redistribuição no Brasil. Precisei estudar como os americanos faziam, e planejei a minha redistribuidora, o que me permitiu chegar com as minhas a 300 jornais, após alguns anos. Quando me convidaram para fazer revista, formei equipe. Sempre planejei tudo o que fiz.

O senhor poderia ter criado uma Mônica adequada, dócil. Mas buscou na sua filha algumas características da personagem. A Mônica da revista também tem suas características?
Não, a personagem é justamente como é a minha filha Mônica, embora ela, hoje diretora comercial da minha empresa, diga que não. Assim como a Magali, minha outra filha, é daquele jeito até hoje. Come que nem o diabo (risos), e não engorda. É elegante, bonita. Cebolinha existiu, era amigo do Cascão, que ganhou esse nome porque realmente não gostava de tomar banho. Se você buscar gente conhecida, capta a humanidade das pessoas, e se transmite isso para o personagem, ele torna-se universal.

E a preocupação com a sua sucessão nos negócios? Essa responsabilidade pesa muito para os seus filhos?
Não. Tive uma boa surpresa neste ano, porque meus três filhos jovens resolveram trabalhar na empresa, espontaneamente. Eu não obrigo ninguém. A Marina entrou para me ajudar na área dos roteiros, atividade para a qual eu despendo mais tempo, hoje. Em seguida o Mauro, que é ator, e resolveu conduzir melhor a área de espetáculos teatrais, dirigindo os nossos espetáculos itinerantes, shows. Já o Maurício Takeda, de 21 anos, que tem uma banda de rock, vai entrar numa área nova, fazendo composições e arranjos para games, um negócio novo. Adorei que eles tenham vindo sem eu chamar. Eles vão se juntar à Vanda, nos projetos especiais, à Valéria, na parte internacional, à Mônica, na comercial, ao Maurício Spada, na informática. Tem ainda a Magali, que escreve e desenha muito bem, num outro estilo de trabalho. Mariângela está cuidando dos filhos, e o mais novo, o Marcelinho, de 10 anos.

Como o senhor vê o uso de novos recursos tecnológicos?
Toda ferramenta nova tem que ser somada. Tudo de comunicação deve ser usado para enriquecer o que se cria. Agora mesmo, aderi ao Twitter. Antes era o Orkut. O Twitter está melhor para mim, porque não comporta muito papo, é uma comunicação mais rápida. Pelo meu Black Berry aprovo as historinhas e outros produtos que meu pessoal me manda. Não devemos ter medo da tecnologia. Devemos, sim, nos aproveitar dela.

O que há de novo a ser lançado entre seus projetos?
Vamos dar uma renovada na nossa produção de filmes. Fiz um contato com estúdios do mundo todo, e vamos começar a fazer co-produção. Um estúdio só te limita a fazer um projeto, e isso não atende à demanda do mundo. Eu tenho que fazer um filme em co-produção com chineses, outro com italianos, outro com americanos… Estamos planejando o Penadinho em computação gráfica, para a televisão; e Astronauta, também em três dimensões, para ser visto com óculos. A Turma da Mônica vai virar “Romeu e Julieta” para cinema; depois, Horácio. Chico Bento, também virá em computação gráfica. E em Roma vamos fazer Ronaldinho Gaúcho.

O personagem faz muito sucesso lá?
Sim, ele é um sucesso danado no mundo – embora aqui não seja tanto. Só em revistas está em 32 idiomas diferentes, e a Mônica em 20. Veja a força do futebol. Por isso mesmo estou sugerindo que o Pelezinho seja o mascote do campeonato do mundo em 2014, no Brasil. Estamos atirando em todos os lados que nos é permitido. E eu estou preparando terreno para poder delegar um pouco mais na empresa, e voltar a fazer o que gosto: tira de jornal, que me fascina.

A queda no índice de leitura influenciou no lançamento da Turma da Mônica Jovem?
A Mônica Jovem é a revista de mangá mais vendida no mundo, hoje. O pessoal vai à banca de jornal e faz reserva para garantir seu exemplar, antes que acabe. A criançada não está lendo? Não concordo. E lê mais também por causa da internet. Meus netos hoje escrevem, se comunicam mais do que meus filhos. Vendemos quase três milhões de exemplares da revista tradicional da Turma da Mônica, e vamos chegar a cinco milhões. Quatro pessoas leem cada revista, é só multiplicar. As crianças e os jovens leem, mas é preciso chegar à revista, ao livro, o bom produto, a mensagem interessante, curiosa, bem escrita, e com bom preço, para estimular ainda mais a leitura. Quem lê fala e escreve melhor.

Foi preciso fazer a Mônica crescer para atingir uma faixa de público diferente?
É que a infância começou a encolher. Aos sete, oito anos, as crianças começaram a ir para o mangá japonês, e abandonar a Turma da Mônica tradicional – embora depois, quando as pessoas casam, indicam para os seus filhos. Pensei: já que elas gostam de mangá e também da Turma da Mônica, vou juntar as duas coisas. Aí nasceu a Turma da Mônica, meio mangá. E deu certo. Tanto que já tem concorrente na nossa cola.

Seu trabalho sempre foi associado à alegria, à fantasia, à imagem do bem. Em 2008, o senhor viveu com sua família uma experiência dura, de violência, com o sequestro do seu filho Marcelo, de dez anos. Como isso afetou a você s?
Como as coisas andaram bem, não sobrou nada além de um ou dois seguranças que a gente passou a ter que usar. A vida continua. Eu me recuso a ficar refém de bandido, refém do medo. Não acredito no medo como caminho que possa nos trazer alguma coisa positiva. Mas é claro que temos que ter cuidado. A vida às vezes nos prega umas peças, armadilhas, mas a gente sai delas e continua vivendo.

Trajetória

Negócios. Mauricio de Sousa, 73 anos, é considerado o maior empresário dos quadrinhos do país. Dos seus negócios fazem parte estúdio, parques temáticos, produção de desenhos em curta e longa-metragem, e licenciamento de personagens para milhares de produtos. Sua equipe de arte tem 150 pessoas, e produz cerca de 900 páginas de histórias em quadrinhos, por mês

Pioneiro . O primeiro personagem publicado de Mauricio de Sousa foi a dupla Bidu e Franjinha, em 1959. A história do cachorrinho simpático e de seu dono foi publicada numa tirinha do jornal Folha da Tarde. Antes, Maurício escrevia reportagens policiais

Tirinhas. Depois das tiras de Franjinha e Bidu vieram as de Cebolinha, Piteco, Chico Bento, Penadinho, além de páginas tipo tablóide semanais de histórias de Horácio, Raposão e Astronauta

Sucesso. O personagem infantil de maior sucesso de Maurício de Souza é a Mônica, inspirada em uma de sua filhas. Em 1970, a revista da dentuça de humor instável foi lançada já com tiragem de 200 mil exemplares. Depois vieram as de Cebolinha, do Chico Bento, do Cascão, Magali, Pelezinho e outras.

Novidade. Em 2008, lançou a Turma da Mônica Jovem. Mônica virou uma adolescente sensual. Numa das edições, beijou o Cebolinha na boca