Nudez: Freud explica. 

A Gazeta | Flávia Câmara Varela | 31/10/2008

“Toda nudez será castigada”, já dizia Nelson Rodrigues em 1965. O que acontece hoje é que o excesso de exposição da nudez dos artistas nos filmes e no cinema, muitas vezes, não passa de estratégia de marketing para alavancar a audiência.

Os autores e diretores se apropriam do imaginário coletivo dos telespectadores para dar asas à imaginação e usam os corpos dos atores como verdadeiras fontes para a proliferação do nu.

A liberdade de expressão fica prejudicada pelo excesso, ou seja, as cenas de nudez são feitas sem um contexto, é o nu pelo nu e nada mais. A TV brasileira e o cinema adquiriram essa herança da cultura americana que divulga massificadamente as três vertentes: sangue, droga e sexo.

Mas por que a nudez causa tanta polêmica? Talvez só Freud explique. Segundo ele, nosso cérebro estaria dividido em três partes: o superego, representante das censuras e das convenções sociais; o ego, que seria a ponte de ligação entre o consciente e o inconsciente; e o id, que seria a mola propulsora dos desejos ocultos dos indivíduos.

Sendo assim, o superego diz às pessoas que elas devem repudiar a nudez. Por sua vez, o id, quando consegue driblar o superego, faz aflorarem os desejos reprimidos dos telespectadores. A Alzira, dançarina em uma novela recente da Globo (Duas Caras), causava frisson nas telinhas do Brasil e era responsável pelos picos de audiência da emissora, porém a mesma população que esperava ansiosamente pela entrada triunfal da personagem rejeitou a falta de indumentária da atriz.

Tanto é que a novela foi reformulada para atender uma parcela das pessoas que preza pela moral e os bons costumes. Bons costumes ou falso moralismo? O fato é que nudez é um tabu na sociedade, e para quebrar essa barreira os autores devem saber distinguir arte de pornografia.

O desafio dos diretores e dos autores seria tornar o nu uma arte, sem explorar o corpo e cair no grotesco, no desnecessário. O recente desabafo do ator Pedro Cardoso não se trata de um retrocesso à liberdade de expressão, mas sim um alerta para a pornografia que assola as TVs e cinemas.

Os telespectadores vivem, assim, em um constante conflito de consciente versus inconsciente. Eles são, de todo modo, co-responsáveis pela pornografia e pelo excesso de nudez, já que, se não houvesse público para esse tipo de programação, não haveria essa abordagem na TV e no cinema.

A TV produz o que o telespectador quer ver, é um jogo. Enquanto a TV alimenta as almas das pessoas e fornece a nudez como produto da indústria cultural, elas absorvem as imagens, suprem sonhos adormecidos e pedem mais nudez. Através dos índices de audiência a TV interpreta que o telespectador está gostando da programação “caliente” e, assim, fornece mais nudez ao público, até que o superego explode, por meio de alguma Igreja, representante dos artistas ou até instituição familiar, e fala “não”.

O que podemos aceitar? O que é pornografia? Em tempos também de mulher melão, maçã e melancia a banalização do corpo é uma realidade clara, e a TV e o cinema exploram o que dá Ibope. E o indivíduo a tudo assiste, ama e rejeita em um círculo vicioso que só Freud explica mesmo.

Flávia Câmara Varela é publicitária, especialista em Marketing e estudante de jornalismo. flaviavarela@hotmail.com