Os office-boys que se cuidem

Depois dos 60, eles não pegam fila, não pagam condução e por isso estão na mira das empresas.

IstoÉ | 26/10/2008 | João Loes

Francisco Rodrigues Filho acorda todos os dias às 6h, toma banho, arruma a cama e segue para o trabalho, onde entra às 8h. Depois de tomar o café da manhã na empresa, vai para os cartórios, que abrem às 9h. Lá, reconhece firma, autentica documentos. “Aquela coisa normal”, sintetiza. Às 10h, parte para os bancos. Faz pagamentos, depósitos. Almoça religiosamente às 13h para, às 14h, reiniciar sua ronda bancária – costuma visitar uns cinco por dia. “Fico na rua até umas 16h30″, conta. De volta à base, tira xerox, organiza arquivos ou volta à rua para comprar alguma coisa. “Coisa de boy, né? De superboy”, afirma, nada modesto. Rotina típica de milhares de trabalhadores, normalmente mais novos que Francisco, 76 anos completados em abril.

Muitas empresas estão revendo seus conceitos na hora de escolher um auxiliar administrativo – o famoso office-boy – e voltando os olhos para os homens com mais de 60 anos, como seu Francisco. Isso sinaliza uma mudança de parâmetros. Tradicionalmente, elas buscavam jovens com o ensino médio completo ou o superior incompleto para esse tipo de vaga e, com isso, limitavam a procura na faixa etária entre 18 e 30 anos. “Com mais de 60 anos, o sujeito não pega fila em banco, cartório ou fórum e não precisa pagar passagem de ônibus e metrô”, explica Luiz Epitácio, presidente do Sindicato Nacional dos Trabalhadores Aposentados (SNTA). Epitácio tem razão, mas o interesse das empresas por profissionais mais velhos vai além desses benefícios óbvios.

Há três anos, quando Jarbas Gonçalves Faria trouxe o septuagenário Francisco Rodrigues Filho para trabalhar como office-idoso na construtora S. Pontes, da qual é sócio, buscava alguém de confiança. Segundo Faria, os concorrentes de Francisco – bem mais jovens – não tinham o preparo e o compromisso que ele exigia de alguém que trabalharia com informações tão vitais para seu negócio. Afinal, é pelas mãos do office-boy que circulam ordens de pagamento, cobranças, dinheiro e documentos oficiais. “O jovem se cansa rápido, não tem muita disposição para lidar com problemas e usa o primeiro emprego como trampolim, o que, de certa forma, é até natural”, afirma Faria.

Mesmo aposentado, Francisco tem carteira assinada e todos os benefícios garantidos. “Algumas empresas acham que não precisam formalizar a contratação, pagar fundo de garantia e recolher impostos. Mas é tudo igual”, diz Guilherme Gantus, advogado especializado em direito trabalhista. O emprego também ajuda a complementar a renda.

“No fim do mês tenho que pagar segurosaúde, alimentação, luz e outras despesas. Uma força é sempre bem-vinda”, afirma Aurélio Saconi, office-idoso de 65 anos que trabalha num escritório de advocacia e costuma declinar de privilégios como filas especiais. “Estou trabalhando como todos os outros. Então, enquanto a saúde permitir, prefiro a fila normal”, diz.

Para especialistas, trabalhar depois dos 60 anos faz muito bem. “O idoso se mantém ativo social e fisicamente e se sente útil”, diz Venceslau Antônio Coelho, médico do Serviço de Geriatria do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo (USP). Mas também existem riscos aos que escolhem a profissão de office-boy na terceira idade. O geriatra lembra que esse serviço exige longas caminhadas por calçadas nem sempre bem conservadas, exposição à chuva, ao sol e ao calor, além de flexibilidade com os horários e os cardápios das refeições. “Em última instância, com o envelhecimento do Brasil e do mundo um novo personagem se apresenta: o idoso que vai trabalhar”,diz Coelho. Seu Francisco já é protagonista nesta história.

A Gazeta | 23/11/2008

  

O retrato do aposentado: 64% ganham salário mínimo

Fernanda Zandonadi fzandonadi@redegazeta.com.brDos pouco mais de 250 mil aposentados no Espírito Santo, 215 mil (86% deles) não ganham o suficiente para viver com dignidade. A afirmação toma como base um salário necessário, calculado em R$ 1,5 mil mensais, para pagar as despesas básicas (alimentação, transporte, moradia) e os gastos com saúde, que dobram nessa época da vida. O valor foi estimado pelo economista, professor PhD e consultor Marcos Crivelaro, e considera um aposentado saudável, sem grandes problemas de saúde.

Do total de aposentados capixabas, 162 mil (exatos 64,8% dos beneficiários do Instituto Nacional de Seguridade Social) ganham R$ 415,00. Há ainda os que conseguem sobreviver com um valor ainda menor (estes somam 2.554).

Impressiona o fato de que os benefícios dos aposentados não crescem tanto quanto os reajustes dos remédios. Pesquisa do Instituto Brasileiro de Defesa dos Usuários de Medicamentos (IDUM), realizada entre abril de 2006 e março de 2007, mostra que alguns rótulos nesse período subiram até 49%.

Segundo Crivelaro, apenas 20% dos pensionistas do Brasil teriam uma aposentadoria considerada razoável e 80% passa dificuldades em maior ou menor grau.

“Dados do IBGE mostram que o salário médio do brasileiro, na ativa, é de aproximadamente R$ 1,5 mil. E o aposentado teria a necessidade de ganhar essa média salarial até o fim da vida para sobreviver com dignidade, independentemente de ajuda dos filhos ou de serviços do governo. Não é correto ter esse descompasso entre quem está trabalhando e quem está aposentado, porque quando se é mais velho, tudo é mais caro”.

Rombo

Mas se todos os aposentados ganhassem o justo, a conta não fecharia, ficaria um rombo, segundo Crivelaro. “Há muita gente com aposentadoria e pouca gente com carteira assinada”. Ele salienta que quem se aposentou apresenta-se como ?ônus assumido?. No entanto, frisa que deve haver mudanças para aqueles que ainda vão se aposentar.

“Essas mudanças na época de aposentadoria já são feitas em alguns países. Estabelece-se uma lei, sujeita à revisão de tempos em tempos, para modificar o tempo de contribuição. É uma saída administrativamente correta e transparente, porque vamos mostrar os números. O sacrifício é de todos e esses são os números reais, não é uma decisão política, mas econômica”, enfatiza.

Mas há outras formas de garantir o futuro. “Uma saída seria estimular com benefícios fiscais empresas a fazer planos de previdência privada em conjunto com o funcionário”, completa.

Diante desse retrato, a Declaração Universal dos Direitos Humanos, tratado internacional que completa 60 anos no dia 10 de dezembro, parece também ter se aposentado.

Diz o documento que: “Todo homem tem direito a um padrão de vida capaz de assegurar, a si e à sua família, saúde e bem-estar, inclusive alimentação, vestuário, habitação, cuidados médicos e serviços sociais indispensáveis, e direito à seguranca em caso de desemprego, doença, invalidez, viuvez, velhice ou outros casos de perda de meios de subsistência”. Um ideal comum, mas longe de ser atingido por todos os povos e todas as nações.

Ser aposentado dói no bolso…
Salário ideal para alguém que não trabalha, e passou dos 60, seria de quase quatro vezes o salário mínimo atual

Os principais gastos do idoso
Segundo o professor PhD e consultor financeiro Marcos Crivelaro

Salário ideal
O salário mínimo para um aposentado brasileiro, seria de, pelo menos, R$ 1,5 mil.

Plano de saúde
Os de preço médio custam em torno de R$ 100,00, mas, para uma pessoa com mais de 60 anos, os valores aumentam e podem chegar a até R$ 400,00.

Despesas com remédio
R$ 200,00

Alimentação básica normal
R$ 200,00
Se houver a necessidade de alimentação especial por conta de diabetes ou problemas cardíacos, por exemplo, é necessário adicionar pelo menos 50% ao valor.

Reserva e lazer
R$ 300,00

Contas fixas
R$ 300,00
Contabiliza os gastos com aluguel, financiamento ou condomínio mais água e luz. Há ainda gastos com transporte e lazer, que somam R$ 100,00.

Previdência privada
Veja algumas recomendações e detalhes sobre essa forma de aplicação

Dedução. A Receita Federal permite a dedução de 12% na declaração anual do Imposto de Renda para aplicação em previdência privada. Um exemplo: se em 2008 seria preciso pagar R$ 5 mil ao governo, esse mesmo valor poderia ser investido na aposentadoria. Esse investimento pode ser feito até o último dia útil de dezembro.

Ações. Há contas de previdência privada que utilizam o dinheiro, em parte, em ações da Bolsa. Hoje a bolsa está em baixa, no entanto, é preciso pensar que o dinheiro da previdência privada é um investimento de longo prazo. A Bolsa, portanto, pode ser um bom negócio. A recomendação é que quem fizer hoje a previdência privada atrele parte da rentabilidade às ações, que estão em baixa. Quando tudo melhorar, a rentabilidade será bem maior.

Poupe. Vale a pena juntar dinheiro em uma poupança e fazer aportes a cada três meses na conta da Previdência. O problema de o depósito ser mensal é que, quando se aplica pouco dinheiro, há uma taxa de carregamento, uma espécie de pedágio. Quanto menor o valor, mais alta é essa taxa. Um exemplo: em alguns bancos e seguradoras, se o depósito for de R$ 100,00, a taxa poderá ser de 5%. Mas, se a aplicação for de R$ 5 mil, o percentual pode ser zero. O interessante é saber a regra do banco ou a da seguradora e qual o valor para anular a taxa de carregamento, juntar esse dinheiro e aplicar.

Fontes: Marcos Crivelaro, professor PhD e consultor (www.dinheiroincrivel.wordpress.com)

Ela vende roupas para ter mais renda
A professora aposentada Dinah Pinto Araújo é cheia de vida, na aparência física e na forma de falar. Gosta de viajar e estar sempre bonita e bem arrumada, diz ela. Dinah sabe que, se dependesse somente da aposentadoria de 1,5 salário mínimo, não poderia fazer tudo que gosta e merece. “Tenho meu marido, que ainda trabalha, e meus filhos”. Mesmo assim, ela não pára. “Às vezes vendo roupas e cremes que compro em viagens a São Paulo”.

 

Finanças depois dos 60: Essas mulheres são exemplo de dignidade

Apesar dos números pouco otimistas, a atendente de hospital aposentada Cidinha Dalmazo não perde a esperança. Ela conta que já fez dois cursos de informática. “Como achei que não tinha aprendido direito, fiz o curso mais uma vez”, diverte-se.Mesmo com a aposentadoria de dois salários mínimos, ela vai realizar um sonho. “Vou fazer um cruzeiro para a Argentina”. O segredo? “Durante três anos eu economizei”.

Aos 66 anos, Maria de Oliveira Silva também é uma vencedora: está aprendendo a ler e escrever. “Quero ler os salmos de Davi”, conta.

Ela ganha um salário mínimo por mês, que já vem com desconto de um empréstimo consignado. “Um remédio mais caro, não dá para comprar. Agora, por exemplo, preciso de óculos, mas estou esperando, porque não sobra dinheiro”.

Prejuízo

Com o impacto da crise financeira na economia, as contribuições recolhidas pelas empresas à Previdência Social sobre a folha de pagamento, que vinham num ritmo crescente, ficaram estáveis em outubro. Essas receitas atingiram no mês passado R$ 14,226 bi, ligeira alta de 0,3% na comparação com setembro.

Como as despesas com pagamento de benefícios também não subiram, o déficit do INSS ficou em R$ 1,909 bilhão. O resultado representou queda de 74,4% na comparação com setembro, quando o rombo foi a R$ 7,453 bilhões com a antecipação do 13º salário.

Apesar da piora nas expectativas, o bom desempenho do mercado formal de trabalho durante o ano continua ajudando as contas do INSS: o déficit da Previdência em outubro ficou 33,9% menor do que o registrado no mesmo período do ano passado, que fora de R$ 2,889 bi.

No acumulado do ano, o resultado também é favorável, com queda de 17,6% no descasamento entre receitas e despesas do INSS, que caiu de R$ 41,814 bilhões (entre janeiro e outubro do ano passado) para R$ 34,456 bi no mesmo período de 2008.

Esse resultado se refere à arrecadação líquida (descontadas as restituições a terceiros) de R$ 129,6 bi – alta de 9,4% na comparação com igual período de 2007, e gasto de R$ 164 bi com aposentadorias dos trabalhadores da iniciativa privada.

“Previdência privada é necessidade”
A previdência privada é uma necessidade, segundo o professor PhD e consultor Marcos Criveralo. “Quanto antes começar a pagar mais simples fica. É matemático: o valor da parcela é multiplicada pelo número de meses em que houve a poupança”. A recomendação é simples. “Começou a trabalhar, parte deve ir para a previdência privada”.

Qualidade de vida
Veja dicas para você chegar lá com tranqüilidade e planejamento

Proteção legal
O que diz o Estatuto do Idoso

Negligência. Nenhum idoso será objeto de qualquer tipo de negligência, discriminação, violência, crueldade ou opressão, e todo atentado aos seus direitos, por ação ou omissão, será punido na forma da lei.
Fonte: Art. 4º do Estatuto do Idoso

Dever. É obrigação do Estado e da sociedade assegurar à pessoa idosa a liberdade, o respeito e a dignidade como pessoa humana e sujeito de direitos civis, políticos, individuais e sociais garantidos na Constituição e nas leis.
Fonte: Art. 10 do Estatuto do Idoso

Saúde é o que interessa
O economista Laudeir Frauches dá algumas dicas para ter uma aposentadoria saudável

Planejamento. Prepare-se para viver com menos dinheiro, evite se aposentar endividado.

Orçamento. Comece desde cedo a fazer orçamento doméstico visando obter a independência financeira (capacidade de pagar as despesas com os vários tipos de rendimentos).

Aplicações. Aprenda a lidar com dinheiro e fazer aplicações financeiras.

Estilo de vida. Mantenha-se útil socialmente e reflita sobre o estilo de vida que terá na 3ª idade. Essa análise é de fundamental importância para saber quanto de dinheiro você precisará na velhice.

Saúde! Lembre-se sempre: de nada adianta cuidar da saúde financeira e descuidar da saúde física. Cuidar da saúde tem que ser prioridade absoluta, pois nenhum orçamento resiste a uma doença crônica.

Mulher. Essas dicas valem principalmente para as mulheres, que vivem mais do que os homens e que, estatisticamente, têm grande possibilidade de estarem viúvas ou divorciadas antes dos 60 anos. Logo, precisam cuidar da saúde e da educação financeira para terem o que importa: qualidade de vida.

Artigo: Envelhecimento não é um filme de terror
Uma das grandes conquistas da humanidade no século XX foi o aumento da esperança de vida. Afinal, todas as pessoas desejam viver muito tempo. No Brasil, os últimos dados divulgados pelo IBGE confirmam essa conquista. A esperança de vida da população brasileira alcançou 72,7 anos. Mas essa conquista cobra um preço: o sistema de saúde precisa ser reformulado para atender ao enorme crescimento da população idosa. O mesmo IBGE que, em setembro deste ano, informou o aumento da expectativa de vida revelou também um dado preocupante: o tempo de vida saudável dos brasileiros é muito inferior ao da população dos países desenvolvidos. No Brasil, os homens têm uma esperança de vida total de 68 anos e uma esperança de vida saudável de 57 anos. Para as mulheres a esperança é de 76 anos, mas com saúde são apenas 62 anos. As pessoas no Brasil, em média, passam mais de uma década doentes, sem ter uma vida produtiva, o que aumenta os custos hospitalares e previdenciários. Nessa faixa etária, além de a inflação dos idosos ser maior do que a população mais jovem, a aposentadoria implica perda de uma série de rendimentos. Por exemplo, quando a pessoa está na ativa recebe, além do salário mensal, o 13º salário, 1/3 das férias (existem empresas que pagam salário integral), participação nos resultados, Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (que é uma poupança forçada para o trabalhador), seguro de vida, hora extra, gratificação, qüinquênio e anuênio. Já o idoso tem essas e outras perdas financeiras, como o valor dos remédios e do plano de saúde que ficam mais caros, a perda da identidade corporativa, do status e do convívio com os colegas. O envelhecimento da população tem que ser um verdadeiro filme de terror? Tem que ser uma verdadeira guerra dos jovens contra os idosos, como prevê para a Europa o filósofo alemão Frank Schirrmarcher no livro ‘A Revolução dos Idosos’. Respondo não. Temos chance de transformar a velhice numa fase produtiva e importante nas nossas vidas, basta haver planejamento.

Laudeir Frauches Economista

Os salários no Estado
Veja as faixas de remuneração dos aposentados

Quantidade de aposentadorias no Espírito Santo até novembro de 2008: 250.622
De 0 a 1 salário mínimo: 2.554
1 salário: 162.636
De 1 a 2 salários: 32.795
De 2 a 3: 17.702
De 3 a 4: 16.659
De 4 a 5: 11.715
De 5 a 6: 5.614
De 6 a 7: 768
De 7 a 8: 103
De 8 a 9: 29
De 9 a 10: 9
Mais de 10: 38