A Gazeta | Opinião | 03/03/2009 | Isabela Castello Miguel

Consumir é fundamental, é um dos principais instrumentos de bem-estar, bem como de representação social. Por meio do consumo, a pessoa busca conforto, segurança, status, identidade e diferenciação. O consumo existe desde o início da humanidade, só que hoje vivemos numa sociedade de consumo, em que este passou a ter uma função central na busca da satisfação dos desejos humanos.
Um dado assustador citado pela especialista americana em sustentabilidade Anne Leonard é que apenas 1% dos produtos consumidos nos EUA permanecem em uso seis meses após a data da compra. Ou seja, 99% das mercadorias adquiridas são descartadas em até seis meses após a sua aquisição.

A questão que se coloca é: por que as pessoas sentem necessidade de consumir tanto?  A fim de estimular este consumo excessivo, as empresas criaram estratégias de obsolescência planejada e obsolescência percebida. Novos produtos são lançados num curto espaço de tempo para provocar nas pessoas a vontade de consumir mais e mais. 
Mesmo que o produto ainda esteja em perfeitas condições de uso, acabamos por acreditar que está velho e antigo, em função das diversas novidades  lançadas no mercado. A propaganda, a moda e a mídia reforçam este comportamento o tempo todo.

Do ponto de vista estritamente econômico, isto pode ser visto como positivo,  pois gera  consumo, renda, emprego e impostos. Só que do ponto de vista ambiental, esta lógica tem se mostrado desastrosa. O planeta Terra vem dando sinais preocupantes de que precisamos rever este padrão de consumo. Desde a década de 1970, passamos a consumir acima da capacidade do planeta de renovar seus recursos naturais e produzimos mais lixo e resíduos do que os nossos ecossistemas conseguem absorver. Precisamos lembrar que os recursos naturais do nosso planeta são finitos.

As nossas decisões de consumo são a principal via para mudar esta realidade. E quando falo consumo, não estou falando apenas da compra, mas também da utilização dos produtos e do seu descarte.  Precisamos rever nosso comportamento e reduzir ao máximo os impactos ambientais das nossas escolhas. 

Pesquisas apontam que a consciência vem crescendo, mas na maioria das vezes, ela não tem se traduzido em ações concretas. Sabemos que a coleta seletiva é importante, mas quantos de nós a adotamos no nosso dia-a-dia?  Sabemos que as sacolas plásticas demoram centenas de anos para se degradarem, mas quantos continuam consumindo dezenas delas cada vez que vão ao supermercado?  Não há possibilidade de pararmos de consumir, mas precisamos consumir menos e de forma mais eficiente.  

Ou revemos a relação do homem com a natureza ou em pouco tempo esgotaremos os recursos naturais do nosso planeta. Precisamos acordar já e iniciar a transição para um futuro mais sustentável.

Isabela Castello Miguel é administradora, designer e coordenadora de marketing da FDV.