Seis tendências que dominarão a sociedade brasileira
As sete tendências que dominarão a sociedade brasileira nos próximos anos estão ligadas à adoção de uma nova postura individual para resolver os problemas coletivos.
Depois de conquistar democracia política e estabilidade econômica, que resultaram no melhor momento de sua história recente, a sociedade brasileira vai entrar em ritmo acelerado num processo ainda mais profundo de mudanças. Nos próximos anos, indicam os estudos de tendências feitos por consultorias, haverá uma revolução no comportamento. Os brasileiros investem no crescimento pessoal e desejam uma sociedade mais harmônica e menos agressiva. A segurança emocional permeia este novo momento. Nossas escolhas estão ligadas à proximidade daqueles em quem confiamos. Perde espaço o ‘eu’, do individualismo e da competição. O ‘nós’, o grupo, passa a ser o caminho para um mundo melhor, uma prosperidade em que todos saiam ganhando. É uma contraposição às notícias de violência que nos bombardeiam todos os dias. “A insegurança nos fez perder nossas certezas como indivíduo. Em grupo é mais fácil se proteger”, diz a cientista social Débora Emm, gerente da Voltage, empresa que analisa tendência.
Não significa que os desejos de consumo irão desaparecer. “Mas o investimento naquilo que traz crescimento pessoal e dissemina o saber será especial, principalmente para as classes C e D, que agora já têm os eletrodomésticos que almejavam”, afirma Ricardo Tortorella, diretor do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), de São Paulo. A MasterCard, com a campanha publicitária “Não tem preço”, começou há quase duas décadas a estudar o que o consumidor realmente considerava indispensável para ser feliz. Para a nova fase da campanha, usou dados da pesquisa comparativa da consultoria Yankelovich Monitor, que reflete como a sociedade está revendo as certezas daquilo que vale a pena na vida. No começo dos anos 90, ter uma casa espaçosa e cara era importante para 25% dos entrevistados. Em 2007, o índice caiu para 17%. Enquanto tirar um dia de folga era o foco de 62% das pessoas ouvidas pela pesquisa há 18 anos, hoje dar uma parada no trabalho para ter prazer em algo faz 75% dos entrevistados mais felizes. “Ninguém mais quer esperar as férias para aproveitar um descanso, um lazer ou estar com quem gosta”, diz Beatriz Galloni, vice-presidente de marketing da MasterCard.
Com base nas pesquisas de tendências, ISTOÉ preparou uma reportagem especial e apresenta sete temas que permearão os hábitos do brasileiro. Esses valores já estão presentes na sociedade, mas ainda em grupos seletos. Nos próximos anos, irão se espalhar, como uma onda. Existem muitas novidades a caminho na área tecnológica e nas chamadas ecossoluções. O mercado também se voltará para pessoas com mais de 60 anos e a casa será valorizada como um espaço de segurança e conforto. Mas as principais mudanças visam o crescimento pessoal: aprofundar o conhecimento, avançar na busca espiritual e trabalhar o bem-estar.
A era do bem-estar
Cilene Pereira
Nos próximos anos, o cotidiano será marcado por atitudes e serviços que proporcionarão o equilíbrio entre o corpo e a mente.
O brasileiro valoriza cada vez mais alguns aspectos importantes da vida. Entre eles, o cuidado com as emoções.
No final da década passada, você provavelmente se deparou com várias reportagens anunciando o século XXI como a era do bem-estar individual. Então, agora que vai começar o décimo ano do novo milênio, muita gente ainda pode se perguntar: Cadê essa revolução? Pois saiba que nos próximos cinco anos será impossível escapar dela. Mas ela não chegou como uma revolução, e sim de forma tão suave quanto definitiva. Para mergulhar neste novo mundo é preciso se desfazer dos preconceitos – a mudança nada tem a ver com algo místico ou impossível de ser atingido por quem não é um monge tibetano ou um guru indiano. Trata-se de uma construção que depende de atitudes simples a serem adotadas dentro da sua rotina e cujo objetivo é o alcance de uma boa saúde, uma mente equilibrada e a satisfação com a aparência do próprio corpo.
Essa realização será facilitada a cada ano com o surgimento ou o aperfeiçoamento de diversos serviços que fazem parte de uma ciência do bem-estar. Não se espante, por exemplo, se dentro de um ano ou dois seu personal trainner passar a ostentar o título de consultor de bem-estar. A formação desse novo profissional começará a ser feita a partir de março, no primeiro curso de Pós-Graduação em Bem-Estar do País. Aprovado pelo Ministério da Educação e organizado pelo Instituto Fitness Brasil, ele terá duração de 13 meses e é dirigido a professores de educação física, fisioterapeutas, psicólogos e nutricionistas – muitas das disciplinas estão relacionadas a estas áreas. Dessa maneira, espera-se que o indivíduo saia capacitado a fornecer aos clientes recomendações sobre a melhor alimentação ou o exercício mais adequado para combater o stress cotidiano. “Ele será uma espécie de coaching (treinador, em inglês) de vida”, explica Waldyr Soares, presidente do Instituto Fitness Brasil. “Ajudará as pessoas a ter um cotidiano mais sadio em todos os sentidos.” A personal trainer paulistana Elaine Cruz, 27 anos, foi uma das primeiras a se matricular. “Hoje os alunos não querem mais somente um passador de exercícios. Desejam alguém que os ajude a manter o organismo e a mente equilibrados”, afirma.
As academias de ginástica também estão mudando. O espaço que dedicam para atividades que integram corpo e mente, como ioga e Pilates, será ainda maior. Além disso, a academia que quiser se destacar no futuro terá necessariamente de incluir nas suas instalações centros dedicados ao bem-estar, locais onde os alunos poderão usufruir de serviços como massagens, banhos de ofurô, banheiras de hidromassagem, tudo planejado para que ele combine músculos enrijecidos e alma distendida. Redes de academia como a Runner e a Triatlhon, em São Paulo, acabam de inaugurar áreas do gênero. “Vivemos um momento de mudanças”, explica Patrícia Pirozzi, diretora executiva da Triatlhon. “Nitidamente os indivíduos estão precisando mais da subjetividade e do afeto.”
De fato, é cada vez maior o número de pessoas que não estão dispostas a abrir mão da sua qualidade de vida em troca do sucesso profissional a qualquer custo nem a fim de fazer todos os sacrifícios para chegar ao corpo escultural. “As pessoas estão percebendo que não basta preencher suas necessidades materiais”, afirma a psicóloga Ana Maria Rossi, presidente da seção brasileira do Institute of Stress Management Association – Isma, entidade internacional dedicada à prevenção e ao tratamento do stress. “O brasileiro valoriza outros aspectos importantes na vida, como o cuidado com as emoções e com um corpo saudável.” Esse anseio alimenta um mercado mais pujante a cada ano do novo milênio. Pelas contas do economista americano Paul Zane Pilzer, autor do livro The wellness revolution (A revolução do bem-estar), essa indústria movimentará até 2010 nada menos do que US$ 1 trilhão em todo o mundo. Além dos serviços de bemestar, como spas e academias, estão incluídos nesta conta segmentos como o de alimentos e bebidas considerados saudáveis e produtos orgânicos.
Essa mudança na maneira de enxergar a vida fará com que você altere também a forma como cuida da beleza. Hoje o hábito é uma rotina na vida de praticamente todos nós – em uma pesquisa com 23 mil mulheres do mundo todo, a empresa Avon descobriu que 93% fazem alguma coisa para melhorar a aparência -, mas nos próximos anos ele será mais pautado pela preocupação em unir boa aparência à saúde. Afinal, está claro que começamos a vincular beleza, saúde e bem-estar como partes de uma coisa única – como realmente são. O resultado dessa nova concepção é uma moderna geração de cosméticos enriquecidos com vitaminas e substâncias extraídas de plantas – fortalecendo a idéia da beleza de dentro para fora.
Além disso, o filtro solar entrará definitivamente no dia-a-dia, amparado pela conscientização maior em relação ao seu papel protetor contra o câncer de pele e o envelhecimento precoce da cútis. “O consumo no Brasil já aumenta”, informa o dermatologista Marcelo Bellini, de São Paulo. Prova do que diz o especialista é uma investigação realizada há dois anos pela fabricante de cosméticos L’Oréal com 2,4 mil mulheres. O trabalho revelou que 57% usavam o filtro diariamente. Em 2003, estudo semelhante apontara índice de adesão de 38%.
Esse é um processo de conscientização que contagia com mais facilidade as novas gerações. Produtos para a pele, especialmente os hidratantes, são os preferidos das adolescentes – segundo a empresa Nívea, garotas de 14 anos já fazem uso diário deles. Os homens fortalecerão o movimento e irão aderir aos cosméticos e tratamentos em grande número, alimentando um mercado de vaidade masculina que só nos últimos cinco anos avançou mais de 200%. De olho nesse potencial, as empresas se preparam para lançar boas alternativas. A Vichy, por exemplo, trouxe ao País a primeira linha de dermocosméticos (produtos com ação mais potente) masculinos.
E, como manda a nova era, as intervenções estéticas estão ganhando o toque da delicadeza, com incisões e tratamentos bem menos agressivos.
“Os pacientes querem resultados mais naturais”, explica José Tariki, presidente da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica. Isso significa que ninguém mais quer ficar com cara de “acabei de fazer plástica”. Simultaneamente, aumentarão os procedimentos sem bisturi, como a aplicação de botox, preenchimentos (colocação de substâncias para atenuar sulcos) e tratamentos a laser – este último a grande aposta dos dermatologistas. Além dos bons resultados na regeneração da pele, eles permitem que o paciente mantenha sua rotina. “Isto tem sido um fator importante para as pessoas. Elas desejam maior praticidade nos tratamentos”, explica a dermatologista Bruna Bravo, do Rio de Janeiro. Este modelo de cuidados realmente atende às necessidades de pessoas como a advogada carioca Rebecca Campbell. Ela escolheu métodos como o botox, laser e preenchimento. “O efeito é muito bom, discreto, e o cotidiano não é alterado”, diz.
A prevenção de doenças será um dos principais focos da medicina. Está provado que a medida poupa vidas e dinheiro
No gerenciamento da saúde, a palavra de ordem será a prevenção. “A ênfase em evitar que as doenças se instalem é muito grande”, afirma José Antonio Maluf, coordenador do Centro de Medicina Preventiva do Hospital Albert Einstein, em São Paulo. “É uma questão estratégica. Sabemos que isso poupa vidas e também dinheiro, que deixa de ser gasto com internações que poderiam ser evitadas.” Um item importante dessa área, o check-up, ganhará novos formatos. Ele será elaborado de acordo com perfis de pacientes – afinal, os riscos variam de acordo com a idade, o sexo e o biotipo. Se você quiser aprimorar a prática da atividade física, por exemplo, poderá submeter-se a uma bateria de exames só para avaliar se está apto para tal. Ou, se fizer parte de determinado grupo étnico, como os japoneses, terá um check-up desenhado especialmente para você, como já existe na rede Fleury Medicina e Saúde, de São Paulo. É mais uma particularidade do futuro: o bem-estar lapidado sob medida para cada um.
Mentes espertas
Cursos e viagens viram instrumento do aprendizado permanente, ajudam as pessoas a ser mais tolerantes e a prepará-las para situações novas.
Suzane Frutuoso
Experimente fazer um teste mentalmente, enquanto lê essa reportagem. Pense que você está visitando uma biblioteca, uma livraria ou uma loja de discos. Qual é a sua primeira reação: retirar das prateleiras um exemplar que você já leu ou ouviu ou deixar os dedos correrem em busca do título que você não conhece, mas desperta sua curiosidade? Se você avança sobre o desconhecido, então bem-vindo à tendência que vai dominar um mundo marcado por transformações profundas e velozes.
Obrigações, como estudar e trabalhar, ou necessidades, como comer e descansar, serão encaradas de forma cada vez mais prazerosa numa sociedade voltada para a viagem do conhecimento. Não se trata apenas da aprendizagem formal, que turbina o currículo, mas especialmente daquela que nos faz evoluir pessoalmente – e, no final, gera resultados positivos no cotidiano, incluindo o trabalho. O saber tornou-se ferramenta essencial para o crescimento de qualquer país e virou sinônimo do grau de evolução de uma sociedade. Quem aprende se destaca, torna-se crítico, observador e tolerante com a diversidade.
É alguém mais apto a estar feliz consigo mesmo. Naturalmente, o primeiro passo é a formação tradicional. Hoje, no Brasil, são 5,8 milhões de estudantes no ensino superior, segundo o Ministério da Educação. O número de formandos cresce anualmente (leia quadro). Um dos motivos foi a melhoria das condições econômicas, que facilitou o acesso aos estudos. Ao mesmo tempo, há uma consciência maior de que sempre podemos aprender mais. E as novas descobertas resultam em sensação de vitória, de outro passo adiante e de que ainda há uma infinidade de possibilidades. “Quanto mais conhecemos, mais percebemos nossa própria ignorância. Assombra concluir quanto falta para saber”, diz o teólogo Afonso Ligório, professor da Pontifícia Universidade Católica (PUC) de São Paulo. Assusta, e também instiga.
Diplomas de graduação e pós-graduação pendurados na parede são importantes, a base para se alçar vôos mais altos. Mas investir num leque maior para o desenvolvimento pessoal tem atraído muitos interessados. Há uma série de cursos, em diferentes áreas, para todos os gostos e cérebros. Estudar no Exterior – que já faz parte da formação básica das classes A e B – cresce cerca de 30% ao ano, segundo empresas do setor. A Universidade Anhembi Morumbi, em São Paulo, por meio de seu International Office, enviou este ano 230 estudantes para intercâmbios em faculdades de outros países. Em 2006 foram 60 alunos. Evoluir em outro idioma ou em aspectos que beneficiem a carreira são alguns dos focos, mas não necessariamente os principais. “O brasileiro vê a experiência de morar fora como um investimento também na vida pessoal. Ele se coloca numa situação de mudança de paradigmas. Torna-se mais flexível, tolerante, culto”, diz Cláudia Martins, gerente de comunicação da Student Travel Bureau (STB).
A paulistana Mariana Fernandes Brandão, 28 anos, sempre soube da importância de investir em sua formação e trabalhar duro para ser a pessoa que almejava. Aos 18 anos, passou seis meses estudando inglês na Inglaterra. Aproveitou também para viajar pela Europa. “Precisava dessa experiência para abrir minha cabeça para novas descobertas”, diz. Gostou tanto que resolveu estudar na Les Roches, uma das mais renomadas escolas de hotelaria do mundo. Foram quatro anos entre as unidades da Espanha e da Suíça. Do período europeu, tirou ensinamentos para toda vida. “Amadureci e aprendi a me adaptar às diferenças.” Viver sob a disciplina rígida da Les Roches não foi em vão. Atualmente, Mariana é gerente de treinamento do hotel Grant Hyatt, em São Paulo,
cargo em que os profissionais costumam chegar após os 30 anos. Ela concilia o trabalho com o MBA em negócios. No momento, tem dúvidas sobre que idioma estudar no futuro: alemão, francês ou mandarim?
O segundo passo na viagem ao conhecimento é transformar o lazer em experiência reveladora. Além dos intercâmbios, o turismo que combina passeios e cursos ou palestras cresceu 50% em três anos, segundo a agência Teresa Perez, especializada na área. Em geral, os clientes que procuram esses pacotes conhecem o mundo. Mas há também os que buscam uma viagem em que possam conhecer algo mais do que o oferecido em um roteiro tradicional. “São pessoas que desejam, inclusive, viajar bem preparadas. Por isso, indicamos livros sobre o destino e organizamos grupos de debate antes da partida”, diz Teresa Perez, dona da agência.
Na última viagem para o Egito, o famoso egiptólogo Zalvi Hawaffs, diretor geral do Conselho de Arqueologia do país, deu uma palestra para cerca de 20 brasileiros. Para 2009, há roteiros programados para Marrocos (aliado à história), Argentina (com aulas de tango) e Croácia (focada em urbanismo – o país tem diversos patrimônios tombados pela Unesco). Mesmo quem viaja apenas a passeio costuma buscar algum contato com a cultura local. Por isso, estão desaparecendo aqueles “Ônibus Brasileiro na Europa”, que nada mais são do que um pedaço do Brasil no Exterior.
A vontade de adquirir conhecimento sobre um assunto específico pelo simples prazer de saber mais sobre aquilo que se aprecia fez aumentar a procura por cursos como vinho e gastronomia. Desde 2003, segundo a Associação Brasileira de Sommeliers (ABS), cresce 30% ao ano a procura por cursos para quem quer entender de vinhos. Em patamar semelhante está a gastronomia. Quando estudou na escola Peter Kumps, em Nova York, há 11 anos, a chef Ana Paula de Moraes Rizkallah se deu conta de que a gastronomia era uma tendência que explodiria em breve. “Não seria mais vista como uma banalidade. Começava um resgate e uma valorização da cozinha”, diz. De volta ao Brasil, ela fundou o Atelier Gourmand, em São Paulo, oferecendo aulas para os leigos. Foi um sucesso. Hoje, até empresas contratam o Atelier para ministrar workshops de gastronomia para seus funcionários.
O terceiro passo, para quem já está estabelecido e é viajado, é conectar conhecimentos de áreas distintas. Cursos independentes de filosofia, psicologia, sociologia e artes, que permitem aprender sem se preocupar com avaliações, estão em alta. Na Casa do Saber, uma das pioneiras na fórmula, o quadro de alunos aumentou de algumas centenas há cinco anos, quando fundada, para cerca de cinco mil em 2008, nas unidades de São Paulo e do Rio de Janeiro. “As pessoas se sentem emburrecendo no trabalho. Elas querem enriquecer internamente”, diz Mario Vitor Santos, diretor-executivo da escola. “Muitos chegam aqui num estágio em que o sucesso já está resolvido. As questões que desejam entender passam a ser profundas, não básicas. Elas querem aprender a pensar diferente e rever o mundo.”
O administrador de empresas Edson Bucci, 44 anos, percebeu, depois da pósgraduação em sua área, a necessidade de se conhecer interiormente e desenvolver uma compreensão maior sobre o ser humano. “Sabia que entendendo minhas emoções seria um chefe melhor, que poderia alcançar o lado mais positivo dos funcionários”, diz ele, diretor comercial e de marketing da Uniserv, empresa de soluções em tecnologia, baseada em Campinas (SP). Começou com cursos de coaching em 2002, até encontrar a biopsicologia. Num curso de dois anos, Bucci aprendeu a controlar emoções negativas e aplicar isso nos relacionamentos. “Minha forma de lidar com conflitos, tanto na vida profissional quanto na particular, evoluiu”, diz. Ele também estuda filosofia e se prepara para um curso de psicologia transpessoal em 2009. Sintonizado com os novos tempos, ele quer evoluir – sempre.
18% dos brasileiros entre 18 e 24 anos estão matriculados no ensino superior atualmente. De acordo com a previsão do Plano Nacional de Educação do MEC, 30% da população nessa faixa etária estará na universidade até 2010.
No conforto do lar
Segurança e aconchego são prioridade na hora de escolher onde morar.
Francisco Alves Filho
Os condomínios são como microcidades dentro da metrópole, onde as pessoas deixam de ser anônimas e passam a ser conhecidas por seus nomes e sua identidade familiar.
Nada de prédios pontudos, com naves voadoras servindo de táxi e máquinas de teletransporte nas esquinas. “As grandes mudanças nas cidades do futuro terão a ver com o relacionamento humano, e não com os cenários de filmes de ficção científica”, prevê o urbanista paranaense Jaime Lerner, um dos responsáveis pelo planejamento de Curitiba, cidade considerada modelo no País. Para ele, a tendência é que nos próximos anos as grandes cidades estejam menos infladas, com todos morando mais perto do trabalho e circulando em centros de convivência com pessoas de vários tipos.
“Para isso se transformar em realidade, precisamos de um novo New Deal global para determinar os rumos da vida em comunidade”, defende Lerner, numa alusão às ações implementadas pelo governo americano para tirar os Estados Unidos da crise financeira de 1929. Na falta de uma reunião de cúpula, a própria sociedade vai encontrando novas formas de convivência. Por conta do alto nível de insegurança, as pessoas passaram a ter medo de circular pelo espaço urbano como faziam antes e estão sendo obrigadas a estreitar laços com os mais próximos, como parentes e vizinhos. Até mesmo as relações familiares estão passando por uma renovação, também influenciadas por esses novos tempos.
Uma boa amostra disso é o que acontece com o advogado carioca Rafael Medeiros, 28 anos. Formado há três anos e atuando na área de direito patrimonial, ele ganha o bastante para ter seu próprio cantinho, mas permanece morando na casa dos pais. E não tem planos de sair. “Aqui tenho várias comodidades, como comida pronta e roupa lavada. Mas o principal é que me dou bem com meu pai e minha mãe”, diz ele. Além do conforto, sua permanência é favorecida pela quebra
de tabus mantidos por muito tempo em algumas famílias. Há alguns anos, Rafael tem total liberdade de levar as namoradas para dormir com ele. “Muitos amigos meus estão na mesma situação”, diz ele, sob o olhar aprovador da mãe, Sandra. Para a psicóloga e terapeuta de família Eloá Andreassa, isso acontece porque houve uma mudança no comportamento dos pais, que estão mais liberais. “Eles deixam de ser austeros, são joviais e, também em favor da segurança, permitem que os filhos durmam com as namoradas em casa”, explica. A psicóloga acredita que essa nova convivência de pais e filhos favoreça a retomada de alguns valores familiares que foram abandonados nas últimas décadas.
Esse mesmo fator faz com que a interação com a vizinhança seja valorizada. Em São Paulo, moradores de alguns bairros já estabeleceram pontos onde gente de uma mesma região pode se encontrar freqüentemente para trocar experiências comuns. Os bares de Vila Madalena são uma boa mostra disso. No Rio de Janeiro, essa necessidade inspirou um estilo de moradia que se tornou a marca da Barra da Tijuca, bairro da zona oeste: os megacondomínios, completamente equipados para manter os moradores na área pelo maior tempo possível. Os últimos lançamentos do mercado imobiliário estão sintonizados com essas novas aspirações. Há 20 anos, a vista era o primordial. Depois, ganhou importância a garagem, seguida da varanda, suíte e closet. Hoje, o fundamental é o pacote segurança, lazer, paisagismo e serviços.
O empresário Jorge Gallo habita um desses complexos. “Aqui recuperei aquela vida comunitária, em que os vizinhos se conhecem e as famílias interagem”, diz ele, morador do condomínio Ocean Front. Num mesmo local, Gallo, sua mulher, Maria Helena, e seus dois filhos dispõem de cursos, lanchonete, bar, cinema, salão de cabeleireiro, academia, além de piscina e quadra de esportes. “Os vizinhos conhecem meus filhos e eu conheço os filhos deles, organizamos eventos de dança de salão dos quais todos participam”, afirma. O empresário diz que, ao terminar a semana de trabalho, geralmente entra no condomínio na sexta-feira à noite e só sai na segunda-feira pela manhã, quando volta ao batente.
De olho nessa demanda, multiplicamse os serviços de entregas de documentos através de motoboys, serviços de delivery que vão do churrasco aos produtos orgânicos e até “personal organizadores de festa”. Acessórios como home theaters e móveis cada vez mais aconchegantes completam o arsenal que transforma o lar num paraíso. O urbanista Lerner alerta para os riscos desse tipo de comportamento. “Não podemos ficar fechados em guetos, onde só nos relacionamos com nossos iguais. Falta a bairros como a Barra um centro onde haja convivência com pessoas de classes, idades e profissões diferentes”, diz ele. A psicóloga Eloá também admite o risco da exclusão, mas vê o lado bom desses megacondomínios: “São como microcidades dentro da metrópole, onde as pessoas deixam de ser anônimas no meio da multidão e passam a ser conhecidas por seus nomes e sua identidade familiar.”
Um mundo pronto para os idosos
O envelhecimento da população está fazendo nascer um planeta com lazer, casas mais seguras e muita solidariedade com a velhice.
Gleice Rodrigues
Se existe alguma certeza quanto ao futuro, é a de que ele será mais velho. Aos poucos, o mundo ao nosso redor terá cada vez mais idosos, resultado de um movimento demográfico no qual a taxa de fecundidade continuará caindo e a expectativa de vida, subindo. Em 2050, o planeta contabilizará dois bilhões de indivíduos com mais de 65 anos. Só no Brasil eles serão mais de 55 milhões. Por seu impacto, este é um daqueles fenômenos que muda a história do ser humano para sempre. Nossas moradias serão diferentes, planejadas para abrigar com segurança e conforto essa população. A medicina se empenhará para criar terapias que lhe proporcione boa saúde. As indústrias do turismo, do lazer e do conhecimento também criarão produtos para que a vida aos 70, 80, 100 anos permaneça divertida.
A transformação rumo a esse mundo mais velho já começou. Muitos prédios e casas começam a ser construídos levando em consideração o fato de que dentro deles haverá alguém com mais de 65 anos. Banheiros com barras de apoio, rampas no lugar de escadas e portas com maçanetas fáceis de serem manuseadas são alguns dos detalhes presentes nas edificações mais modernas. Elas são a primeira mostra da chamada “arquitetura da velhice”, uma área emergente dedicada a pensar moradias para idosos. “Os arquitetos devem considerar desde já se estão criando espaço para facilitar a vida das pessoas ou para segregálas”, afirma Lilian Osmo, professora de arquitetura e designer da Fundação Armando Álvares Penteado, de São Paulo.
Um exemplo desse modelo de arquitetura pode ser visto no Hiléa, um centro de convivência para pessoas mais velhas localizado em São Paulo. O lugar foi projetado pelo escritório de arquitetura Aflalo & Gasperini e sua construção foi coordenada pela arquiteta Luana Rabesco.”Tudo foi pensado para deixar o ambiente o mais funcional possível”, diz Luana. Na instituição, o piso é antiderrapante e sem desnível e até os móveis receberam atenção especial.
“Trocamos os sofás por cadeiras com braços”, explica a arquiteta. “Eles são um importante apoio na hora de sentar e levantar.” Houve o cuidado também na decoração dos ambientes. Muitos, como o salão de beleza e o cinema, têm design antigo para que sirvam como lembrança e ao mesmo tempo referência. Detalhes como esses fazem diferença na vida de indivíduos como a aposentada Elvira Salles, 66 anos. Ela vai ao Hilea para realizar atividades como pintura e dança. Lá, sente-se acolhida e segura. “Posso fazer tudo sozinha”, conta. “E não há nada melhor do que a autonomia.”
Este, de fato, é o ponto mais importante da nova realidade que está sendo construída para os mais velhos. Sua principal marca deverá ser a garantia de liberdade de ação, de movimentos e de escolha a essa população. Afinal, quando se fala aqui de idosos é preciso tirar da mente aquela imagem antiquada do velhinho de pijama, sentado no sofá em frente à televisão. Nos próximos anos, a velhice perderá de vez este estigma. “É por isso que os serviços voltados para o lazer e programas culturais crescerão”, afirma o pesquisador Marcelo Néri, do Centro de Políticas Sociais da Fundação Getúlio Vargas, do Rio de Janeiro.
A força dessa demanda pode ser sentida hoje. Dados do programa Viaja Mais Melhor Idade, criado pelo Ministério do Turismo, mostram que entre agosto de 2007 e outubro deste ano foram vendidos cerca de 190 mil pacotes turísticos. Na CVC, uma das maiores operadoras de viagens do Brasil, do 1,5 milhão de passageiros que embarcaram em viagens aéreas, marítimas e rodoviárias no ano passado, cerca de 30% – ou 450 mil – tinham mais de 65 anos. “Estimamos que neste ano o percentual suba para 35%”, afirma Valter Patriani, presidente da empresa.
Esse anseio dos mais velhos pelo que a vida ainda pode apresentar de novo alimentará também a área do intercâmbio cultural, caracterizado por cursos de línguas oferecidos em outros países. No Brasil, a opção desperta interesse crescente. “Só neste ano embarcamos mais de 20 idosos para cursos no Ex-terior”, conta Flávio Crusoé, diretor da Bex Intercâmbio, empresa especializada no serviço. O professor Lacordaire Faria, 67 anos, foi um dos que mais desfrutaram da viagem. “Fiquei quatro semanas nos Estados Unidos aperfeiçoando meu inglês”, conta.
A sociedade também começa a investir na criação de recursos e tratamentos para assegurar mais saúde a essas pessoas. Nos últimos anos, um dos ramos da medicina que mais experimentaram crescimento foi o associado aos cuidados com os mais velhos. Em São Paulo, por exemplo, tornouse comum ver médicos de outras especialidades freqüentando os seminários da Sociedade Brasileira de Clínica Médica para entender melhor as peculiaridades desse grupo da população. “Esses profissionais estão sendo treinados para identificar problemas comuns entre esse grupo”, afirma o médico Abrão Cury, diretor da Sociedade Brasileira de Clínica Médica.
Há ainda um consenso de que é preciso dar atenção especial aos chamados cuidadores, as pessoas que tomarão conta daqueles mais debilitados pela idade. Diversos estudos estão mostrando que esses anjos da velhice precisam de apoio emocional e físico para executar suas tarefas. Caso contrário, elas se tornam pesadas demais. Quando isso acontece, ambos – cuidador e idoso – adoecem. É por isso que começam a surgir cursos de preparo para esses indivíduos, dirigidos a familiares, amigos ou profissionais de saúde como enfermeiros ou fisioterapeutas. Associações de representantes de pacientes também estão organizando espaços nos quais os cuidadores podem partilhar suas experiências, cansaço, culpa e tristeza. É uma forma de tornar o trabalho menos doloroso. E de garantir um mundo melhor a todos.
Pegadas verdes no planeta
As preocupações com o meio ambiente vencem modismos e afetações e mudam hábitos de pessoas e empresas, que passaram a incorporar um estilo sustentável de viver e trabalhar.
Verônica Mambrini
O estudante de direito Rafael Poço, 22 anos, começou a pensar cedo no impacto de suas ações no meio ambiente. “Desde os 14 anos, leio sobre o tema. A primeira mudança foi parar de comer carne”, diz Poço. O estudante foi incorporando soluções verdes por toda parte. No guardaroupa, destacam-se camisetas feitas de garrafas PET e calças de lona de caminhão reciclada. Na decoração, móveis usados ganharam vida nova depois de uma reforma. Na hora de se deslocar por São Paulo, Poço dá prioridade à bicicleta e ao transporte público, mas também usa o carro quando precisa. E faz questão de consumir produtos de empresas que fornecem o máximo possível de informações ao consumidor. “É possível fazer consumo sustentável, mas, como a demanda é pequena, quase não existe marketing ambiental dos produtos”, afirma.
“Pelo menos 33% dos brasileiros percebem os impactos coletivos ou de longo prazo nas decisões de consumo”, diz Heloísa Torres de Mello, gerente de operações do Instituto Akatu, organização que estimula o consumo consciente. De acordo com uma pesquisa da instituição, o número de consumidores que no ano passado privilegiaram empresas com boas práticas socioambientais em suas decisões de compra cresceu 7%, em relação ao estudo anterior, de 2003. “É uma tendência que veio para ficar”, acredita a gerente do Akatu.
Do ponto de vista empresarial, as soluções ecológicas faziam parte até agora das megacorporações, que muitas vezes as utilizaram como mera estratégia de marketing, ou de lojas muito pequenas, que atuavam num incipiente nicho de consumo. Mas a prova de que o modismo virou uma onda irreversível pode ser vista em atitudes do comércio de bairro. A rede de padarias paulista Dona Deôla, cerca de 430 litros de óleo de cozinha das quatro unidades. Eles agora viram sabão e detergente. “Temos mudado várias práticas, na tentativa de fazer nossa parte. Não dava para jogar o óleo direto no ralo, é um crime ambiental”, diz Vera Helena, proprietária da Dona Deôla. Em setembro, a padaria lançou suas próprias ecobags.
As 800 unidades vendidas em três meses já geraram redução de 20% no consumo de sacolas plásticas. Outra substituição quase invisível foi a troca dos jogos americanos de papel por versões em plástico reciclável, poupando o descarte de 150 mil folhas. “Estamos estudando formas de reduzir o uso de materiais antiecológicos, como isopor, e utilizar biodegradáveis, por exemplo”, diz Vera.
Um dos pilares da mudança no curto prazo é o aumento da reciclagem de materiais. “O uso de isopor, que tem uma reciclagem difícil, deve diminuir, assim como o uso de matérias- primas com substâncias tóxicas”, diz Rafael Tannus, sócio da Agência Verde, consultoria socioambiental e em desenvolvimento sustentável. Tannus ressalta também o aumento de importância que selos de fair trade (comércio justo) devem ganhar. Esse tipo de certificação garante que as empresas mantenham boas práticas com o meio ambiente e com as comunidades ligadas à produção. “Selos assim já estão consolidados nos Estados Unidos e na Europa. No Brasil, deve crescer a demanda por produtos certificados nos próximos anos”, afirma Tannus.
É justamente esse tipo de critério que define o que vai para a ecobag da bióloga Paula Signorini, 27 anos. “Procuro comprar produtos com selos de orgânicos e do Procel, e evito os com selos de transgênicos. Mas ainda falta um selo para empresas sustentáveis”, diz a bióloga, dona do blog Rastro de Carbono, sobre responsabilidade ambiental. Além da reciclagem, ela passou a evitar excesso de embalagens, a reduzir o consumo de carne e a economizar energia elétrica e água.
O próximo passo é transformar o lixo orgânico em adubo. “Estou montando uma composteira no apartamento”, diz Paula. A preocupação faz sentido: cada pessoa produz cerca de 25 quilos de resíduos orgânicos por mês. “Outras medidas, como painéis termossolares, são um sonho de consumo, mas a estrutura do meu apartamento não permite. No futuro, pretendo ir para um prédio mais verde ou para uma ecovila”, afirma a bióloga.
A arquitetura sustentável é um setor que ainda precisa de critérios mais precisos, mas já atrai interessados. A idéia de prédios verdes surgiu na década passada, nos Estados Unidos. Na época, estava ligada a dois aspectos fundamentais: consumir menos recursos, como gás e energia, e dar um novo tipo de tratamento para o lixo.
De acordo com Cláudio Boechat, pesquisador da Fundação Dom Cabral, outras características devem se tornar importantes. “Tintas menos poluentes e materiais de construção reciclados são tendências”, diz Boechat. A Ecosfera, construtora especializada no nicho, está de olho no interesse crescente da classe média, ao oferecer imóveis de valores entre R$ 80 mil e R$ 350 mil, com itens como aproveitamento de energia solar e estrutura de reúso da água. “Sustentabilidade foi o fator que definiu a compra de 80% dos clientes da construtora”, diz Luiz Fernando Lucho do Valle, presidente da Ecosfera. Por tabela, prédios verdes trazem um benefício financeiro – o condomínio é em média 30% mais barato.
Em termos de economia, o geógrafo Luciano Legaspe consegue ser ainda mais radical: a chácara onde mora, em Cotia, a 30 quilômetros de São Paulo, nem sequer tem conta de água. A água potável vem de um poço e a da chuva é usada na irrigação e lavagem. Os painéis termossolares reduziram a conta de energia elétrica em 30%. Praticamente não há desperdício: os restos orgânicos alimentam a criação de galinhas e coelhos, além da cabra e da vaca que fornecem laticínios para a família. O lixo que sobra fertiliza a horta e o pomar. “Quando eu morava em apartamento, já fazia reciclagem, guardando os resíduos orgânicos em tambores, que eu trazia para a chácara”, diz Legaspe. “É preciso mudar a cultura do brasileiro. O governo da Bélgica, por exemplo, fornece composteiras de graça, porque menos lixo reduz os gastos públicos”, conclui.
Se falar em coleta de água da chuva parecia conversa de hippie há alguns anos, hoje a tecnologia está a favor do meio ambiente. A Acqua Brasilis, que projeta os sistemas de captação de água da chuva e reúso de água para projetos de grandes construtoras, lançou este ano sistemas para residências. “Clientes finais são 5% do nosso público hoje, mas, em cinco anos, esperamos que esse número chegue a 50%”, diz Paulino de Almeida, engenheiro de projetos da Acqua Brasilis. Com tantas tecnologias se tornando mais acessíveis e mais pressão social por produtos sustentáveis e boas práticas ambientais, é possível antever um horizonte verde. “Muita gente ainda age como se o problema fosse do governo ou das empresas, mas a escolha de uma empresa é uma premiação e faz diferença”, diz Heloísa Torres de Mello, da Akatu. Rafael Tannus, da Agência Verde, completa: “Nos próximos anos, até será possível sobreviver sem atender a critérios de sustentabilidade, mas crescer e aparecer, não.”
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