Na Revista Época Clemente Nóbrega oferece algumas opiniões sobre empreendedorismo.    1- A média das pessoas é muito mais inclinada a garantir o status quo do que a arriscar o novo, por isso, empreendedorismo é para poucos.   Isso é um fato da vida que tem a ver com a natureza humana. O pequeno empreendedor é fundamental para a sociedade e a economia, mas ele só muda o mundo depois que fica… bem, depois que fica grande. O cara que é demitido e vai dirigir táxi não é empreendedor. O sujeito que abre uma birosca na favela não é empreendedor. O sujeito que vende sorvete na praia e se dá bem porque desenvolve relacionamentos um-a-um com seus clientes, é apenas uma espécie de proto-empreendedor. Só vira empreendedor quando, insatisfeito com aquele pequeno sucesso, ousa mais, parte para uma fábrica de sorvete, usa novas tecnologias, novas matérias primas, exporta, introduz novos formatos de distribuição, inventa arranjos novos e diversifica. Este muda o mundo, porque só cresceu por aceitar correr riscos que a média das pessoas, em sua situação, não estaria disposta a correr. Todos podem e devem ser estimulados a entender o empreendedorismo. Todos podem usar os princípios de Sam Walton, mas não podem ser Sam Walton. A política certa é: para que o empreendedor Schumpeteriano (aquele que tem importância para a sociedade) apareça, é preciso que se incentive o surgimento de muitos proto-empreendedores. É preciso facilitar o erro, entende?    2- O empreendedor não é um inventor.Ele nunca cria do zero, mas reconfigura o que já estava lá, com o objetivo de gerara um valor ($$)maior.    Todo produto ou conceito de negócio novo parte sempre de elementos que já existiam antes, e que o empreendedor rearranja de forma original. Exemplo: Em 1930, o varejo de alimentos nos EUA era dominado por cadeias de armazéns – algo que não existe mais hoje. Naquele ano, um sujeito chamado Michael Cullen escreveu ao presidente da Kroger - a segunda maior cadeia do gênero – propondo a criação de um novo tipo de ”armazém” que considerava revolucionário, e pedia uma reunião para explicar seu conceito. Ele queria falar daquilo que mais tarde passaria a ser conhecido como supermercado. Sua argumentação era baseada no seguinte: daria para baixar muito o preço das mercadorias vendidas se fosse introduzida uma mudança básica: reduzir drasticamente o trabalho dos atendentes no balcão. Tente colocar-se no lugar de um consumidor de 1930. Antes do supermercado (o conceito que Cullen estava propondo) o cliente não comprava, as coisas eram vendidas a ele. Os preços não eram colocados nos produtos. Os produtos ficavam armazenados nos fundos das lojas, acessíveis apenas ao atendente. O atendente do balcão é que controlava a venda. Geralmente, ele empurrava ao cliente as marcas próprias do estabelecimento, que eram as que geravam as maiores margens de lucro. Nos supermercados, ao contrário, os clientes decidiriam por conta própria. Como os preços eram marcados nas próprias mercadorias, e os produtos ficavam visíveis nas prateleiras, os consumidores podiam fazer suas próprias escolhas, sem pressão ou sem ter de admitir que não tivessem dinheiro para comprar as marcas mais caras. 

Clemente Nóbrega, pesquisador de gestão e estratégia, autor de Empresas de Sucesso, Pessoas Infelizes?, entre outros livros, e do site Clemente