Textos postados em 2007
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Crie o seu roteiro e seja um tremendo sucesso.
19 de Mai de 2007 – 16h41min
Marco Roza
Fora da carteira assinada, crie seu próprio roteiro e seja um tremendo sucesso de bilheteria.
Estar empregado, muitas vezes, é estar vinculado ao roteiro alheio. Ávidos pelo cheque no fim do mês, assumimos em nossas conversas e reflexões o que os outros (chefes e patrões) escrevem para nosso dia-a-dia.
Preste atenção a uma roda de amigos. Falam das ordens recebidas, repetem as maldades de chefes e colegas, reproduzem o sufocante filme do escritório. Exalam, no lazer, o veneno que os contaminou durante as horas trabalhadas. E o fazem com tanta convicção que lembram o poeta Fernando Pessoa: “O poeta é um fingidor./Finge tão completamente/Que chega a fingir que é dor/A dor que deveras sente”.
Até que a decisão unilateral de um chefe impotente ou de um patrão precipitado os lançam ao léu. Descobrem, então, que viveram, durante vários anos, o roteiro de estranhos. Baloiçando, após a demissão, nas águas turvas do próprio destino demoram a deixar a ficha cair e a segurar com firmeza o leme da própria vida.
O seu roteiro
Estar desempregado é ser obrigado a escrever e a executar o próprio roteiro. Ser roteirista, diretor e ator. E assumir todas as indicações ao próprio Oscar. Apesar de traduzirem desemprego por desespero, eu quero mostrar para você que há gozos possíveis quando quem está no comando do ato é você. De todos os destinos a serem vividos, só o seu, sob seu controle, o recompensará instantaneamente. Diferentemente das vagas promessas de um cheque mensal, que pode ser sumariamente interrompido com uma demissão, quando você assume as rédeas de sua vida produtiva, a recompensa (ou a correção de rumos) chega em tempo real, na consumação do ato. Orgasmo da melhor qualidade. Ao acumular pequenos gozos você aprenderá a focar no rumo escolhido. Homem (Mulher) flecha que “avança sem cessar e cai, e a cada passo é outro e ele mesmo”. Flecha que incorpora na sua trajetória sonhos, projetos e roteiros. Seus e de terceiros. Você não está mais só. Ao seu redor você arrasta um letreiro inteiro de filme.
Lucidez
Controlar o próprio destino o obriga à lucidez espiritual. Tudo conta. Siga, ao pé da letra, os conselhos de Miyamoto Musashi, em “O livro dos 5 Anéis”: “desenvolva o julgamento intuitivo e compreensão de todas as coisas”. Sua vida atingirá uma plenitude tão arrasadora que contagiará todos à sua volta. Você se tornará um arrastão de um homem (ou uma mulher) só. Dono do show. E será premiado com o Oscar de suas realizações. Ou punido por sua indiferença. Fora da carteira assinada acaba o corpo mole. Sua vida será ampla, plenamente humana e sua. Sua criatividade saltará pelos seus poros, sua fala será direta: sim, sim; não, não. Seu aperto de mão transferirá energia. Seus contratos trarão a consolidação de roteiros de sucesso. A mesma pessoa e a cada acordo comercial, outra pessoa. Ampliada. Serena. Livre. E um tremendo sucesso de bilheteria.
Marco roza é jornalista – marcoroza@mdm.com.br.
Professional Media Broker: ameaça ou oportunidade?
12 de Mai de 2007 – 15h39min
As oportunidades norteiam o sucesso daqueles que estão preparados e agem rápido. A preparação adequada capacita o indivíduo a visualizar tendências e agir com velocidade e, às vezes, até ultrapassar os mais inteligentes ou maiores que ele.
Uma tendência no mercado anunciante capixaba está transformando a relação profissional entre os meios de comunicação, os pequenos anunciantes e os agenciadores de propaganda. Neste momento, o mercado capixaba convive com dois tipos de prestadores de serviço: o agenciador de publicidade e propaganda e o Professional Media Broker (lê-se mídia brouquêr).
Media Broker – a junção dessas palavras criou uma terminologia tão nova que não existe referência nem na internet. Segundo o tradutor Babylon “media” é um meio de comunicação, um intermediário, um meio pelo qual se pode chegar ao outro lado; E “broker” é corretor, vendedor especializado com conhecimento e sabedoria sobre um produto ou serviço.
Resumindo: Media Broker pode ser traduzido como o profissional encarregado de fazer a interface entre os meios de comunicação e a pessoa física ou empresa anunciante, oferecendo um maior conhecimento e sabedoria sobre propaganda e publicidade e até sobre as ferramentas do marketing.
Mas o que importa não é a novidade do termo e sim que o Espírito Santo conta com agenciadores de propaganda e publcidade que controlam uma bela fatia do dinheiro investido na compra de ações de marketing – de panfletagem a grandes shows nacionais e feiras, de peruinhas de som a comerciais na televisão. Um maravilhoso sistema de formiguinhas que realiza pequenas vendas para muitos anunciantes, viabilizando o acesso destes aos meios de comunicação, ao mesmo tempo em que cria uma renovação constante e duradoura na base de clientes para os veículos de comunicação.
Ainda não encontramos dados confiáveis para definir quantos estão capacitados adequadamente para esta novíssima função/atividade, mas temos ouvido de alguns que o interesse em continuar a se capacitar é prioritário para a sobrevivência profissional. Os veículos de comunicação podem ajudar neste up-grade formalizando parceria com escolas técnicas e faculdades para oferecer treinamento e capacitação que lapidem estas formigas. Resta saber se os agenciadores estão dispostos a assumir esta postura profissionalizada e aproveitar as oportunidades que aparecerão no curto prazo. Resta saber se querem se tornar Professionais Media Brokers.
É esperar pra ver. Ou ver a banda passar.
Envie comentários para bentopeixoto@pop.com.br
Bento Peixoto, Ex-Agenciador de Publicidade e Propaganda.
Professional Media Broker desde fevereiro/2004.
A angústia da vida executiva
12 de Mai de 2007 – 10h41min
O mais completo estudo sobre o mundo corporativo no Brasil revela por que o ambiente de trabalho se tornou fonte de infelicidade para presidentes e diretores.
Acesse e leia a matéria na íntegra. O link já está com senha/aberto. http://epocanegocios.globo.com/Revista/Epocanegocios/0,,EDG77246-8374-3,00.html
Propaganda para quê?
12 de Mai de 2007 – 10h30min
Ontem,11/5/2007, encontramos uma notícia surpreendente na internet: Marcos Mesquita, do sindicato nacional que representa 98% da indústria da cerveja, pretende propor uma Ação Direta de Inconstitucionalidade (adin) para discutir a regulamentação sobre a propaganda de bebida que a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) pretende publicar. Para embasar a iniciativa, ele usa argumentos bastante contraditórios.
Segundo o Superintendente, “Experiências em outros países demonstram que a restrição da propaganda não altera o mercado consumidor de bebida e que vários estudos mostram que o mercado não se expande por causa da propaganda, e sim pelo preço e poder de compra do consumidor.” Ele tenta justificar os pesados investimentos em propaganda: “Sem propaganda, a competição entre as marcas se acirra, isso leva a uma queda de preços e, em conseqüência, a uma queda do valor do produto. E que a disputa entre as marcas leva as indústrias a batalharem pela conquista de uma fatia de consumidores.
Na nossa opinião, essa foi um tiro de canhão no próprio pé. Ora, se a propaganda não altera o movimento do mercado então, brigar para quê?
O que você pensa disso? Vamos discutir isso? Envie a sua opinião para bentopeixoto@pop.com.br.
Uma história bonita… e triste.
09 de Mai de 2007 – 14h50min
O exemplo de um consumidor em busca da realização de um desejo.
Era uma manhã de sol, início de agosto de 1973. Recordo que seria o primeiro dia de aula depois das férias de julho. Eu estava a caminho da Escola Municipal Anísio Teixeira, onde cursava o quarto ano primário, quando um cartaz me chamou a atenção. Em um dos muros da avenida Régis Pacheco, no centro de minha cidade, o mural estampava em letras garrafais: “Roberto Carlos vem aí… Dia 31 de agosto, às 21 horas, Estádio Lomanto Júnior. Ingressos à venda”. Meu coração disparou. Finalmente eu poderia ver Roberto Carlos ao vivo. Finalmente Roberto viria a Vitória da Conquista, cidade da Bahia que deu ao Brasil nomes como o cineasta Glauber Rocha e os cantadores Elomar e Xangai, mas que adotou Roberto Carlos como se também fosse seu filho. Desde pelo menos 1966, auge da jovem guarda, havia uma grande expectativa por um show de Roberto Carlos em minha cidade. Entretanto, o cantor se apresentava em Salvador e outras cidades baianas como Feira de Santana e Itabuna, e nada de vir a Vitória da Conquista. Assim como acontecia na época em relação à possível visita de Frank Sinatra ao Brasil, a presença de Roberto Carlos na cidade era várias vezes anunciada, mas, depois, nunca confirmada. Em setembro de 1969, por exemplo, um show chegou a ser programado, o local reservado, mas a agenda de Roberto não comportou Vitória da Conquista, que foi outra vez excluída do seu roteiro. Mas agora, em agosto de 1973, parecia que ele viria mesmo e imensos cartazes com a foto de Roberto Carlos estavam ali nos muros da cidade para quem quisesse ver. Seria um único show, em um único dia, única oportunidade de ver Roberto Carlos ao vivo em Vitória da Conquista. Naquele início dos anos 70, Roberto Carlos ainda era chamado de o rei da juventude, mas ele já atingia todas as faixas etárias, principalmente as crianças, que desde a jovem guarda se divertiam ao ouvir temas como O brucutu, O calhambeque e História de Um Homem Mau. Espalhados por todo o Brasil havia milhares e milhares de pimpolhos que cantavam o seu repertório, imitavam seus gestos e repetiam suas frases e gírias, mora? E eu era uma dessas crianças com os olhos e ouvidos postos em Roberto Carlos, e atento a tudo o que ele fizesse. Mas, no meu caso, não apenas nele, porque costumava assistir a quase todos os shows que aconteciam em minha cidade. Com nove, dez, onze anos, ia sempre para a porta do Cine Glória, local da maioria dos shows, tentando filar uma entrada. E foi assim que assisti, em abril de 1972, por exemplo, ao primeiro show que Gilberto Gil fez no Brasil após sua volta do exílio em Londres. Seus pais, doutor Gil e dona Florinda, moravam em Vitória da Conquista e, nessa visita à família, Gil fez uma apresentação de voz e violão no Cine Glória. E lá estava eu, aos dez anos de idade, ouvindo Gilberto Gil discursar e cantar Expresso 2 2 2 2, O sonho acabou, Back in Bahia e outras canções do exílio. Recordo também de um concorrido show do cantor Paulo Sérgio, outro de Nelson Ned e até um do veterano Nelson Gonçalves. Mas agora estaria na cidade o ídolo maior, Roberto Carlos, e, diferentemente dos outros, o show dele não seria no cinema e sim no estádio de futebol Lomanto Júnior, o Lomantão. Na véspera do dia do show eu estava tão ansioso que nem dormi direito. Não tinha ingresso nem dinheiro para comprá-lo. O pior é que, ao contrário do Cine Glória, que fica no centro da cidade e dava para eu ir até lá a pé, o estádio Lomantão fica bem mais distante. Era preciso pegar ônibus e, caso conseguisse entrar no show, chegaria muito tarde em casa. O preço do ingresso, me lembro muito bem, era 10 cruzeiros. Era uma nota vermelha que trazia a esfinge de Tiradentes. Como eu desejei ter uma nota daquelas para comprar logo meu ingresso! Minha mãe percebeu a minha vontade e então tomou uma decisão. Deu-me o dinheiro de ida e volta do ônibus e pediu que eu fosse para a porta do Lomantão. Quem sabe encontraria alguém conhecido que pudesse me colocar dentro do estádio. Mas recomendou: se não conseguisse entrar, que eu viesse para casa imediatamente. Ela não iria dormir enquanto eu não voltasse.
O ônibus que me conduziu ao estádio estava superlotado. Fiquei na parte de trás junto a um grupo de moças e rapazes que cantavam canções de Roberto Carlos. Era um clima festivo e de muita alegria. O grupo de trás puxava uma canção e a galera do ônibus seguia acompanhando. E assim fomos até o estádio cantando sucessos como Quero que vá tudo pro inferno, Se você pensa, Jesus Cristo e outras. Ao chegar ao estádio, notei que a fila estava imensa, mas andava com rapidez. A maioria das pessoas já estava com ingresso na mão. Acho que nem tinha mais ingressos para vender, talvez só nas mãos de cambistas.
Eu procurava desesperadamente algum conhecido que pudesse me dar uma entrada. Corria de uma ponta a outra da fila. A pessoa mais conhecida que encontrei foi o gerente de um supermercado que havia perto da rua em que eu morava. Ele estava lá na fila com toda a família: a mulher, os filhos, a cunhada e acho que até a empregada dele ganhou um ingresso para o show. Depois de alguns minutos de hesitação, tomei coragem e me aproximei dele. Perguntei se ele podia pagar a minha entrada. Ele me reconheceu, estranhou que eu estivesse ali sozinho, mas disse que nada podia fazer porque os ingressos estavam contados. Fui para a porta de entrada principal do estádio e apelei ao porteiro para que me deixasse entrar. “Só com ingresso, e, por favor, saia da frente para não atrapalhar o público.” Na época, Roberto Carlos utilizava para shows em estádios de futebol um equipamento de voz de 800 volts e dois canhões de luz de 2 000 volts de potência. Havia também um gerador próprio para suprir as dificuldades de energia nas cidades do interior. Tudo era transportado num caminhão Ford F-350, que eu vi parado em frente ao estádio. O caminhão trazia a inscrição RC-7 bem grande na sua carroceria de alumínio. Roberto Carlos era o cantor de todas as classes sociais, mas só o público de classe média para cima tinha o privilégio de ver o seu ídolo ao vivo. Na época, pouco antes de um show em Florianópolis, o próprio Roberto admitia ao repórter que o entrevistava: “Quer apostar como tem mais gente lá fora do que aqui dentro? Meu público é pobre, não pode pagar ingresso muito caro”. De fato, a grande maioria do povo brasileiro ficava do lado de fora dos shows de Roberto Carlos. E eu estava ali para provar isso. Lembro que o tempo estava passando e já não tinha quase ninguém fora do estádio. Corri para o portão lateral onde estava estacionado o imenso caminhão com o nome RC-7. Era por ali que entravam os músicos. Era por ali que entraria Roberto Carlos. De repente um corre-corre, alvoroço no portão lateral
seguranças se aproximando. Um Galaxie LTD metálico chegou lentamente e no banco de trás, com os vidros todos fechados, dava para ver que lá estava ele, com os imensos cabelos encaracolados que usava naquele início dos anos 70. Era ele mesmo, Roberto Carlos! Eu e um grupo de meninos começamos a gritar “Roberto, Roberto…”. Ele nos acenou com aquele seu sorriso cândido e triste, e o carro desapareceu no imenso portão lateral que se fechou rapidamente. Parecia o fim da esperança de entrar. Eu, que assistira a tantos shows em Vitória da Conquista, perderia justamente aquele?! Muitos dos que estavam ali no portão foram embora. Ficamos eu e alguns meninos de rua, sem camisa e todos negros que costumavam estar sempre na porta do estádio, fosse em jogos de futebol, shows de música ou eventos religiosos. Mas, antes de dar a última tranca no portão, um senhor de terno azul, provavelmente da equipe de Roberto Carlos, nos chamou: “Ei, vocês, entrem aqui, rápido”. Corremos todos para o portão. Que sorte, pensei, no último instante a chance de ver o show de Roberto Carlos. Mas, no momento em que me abaixei para atravessar o portão, aquele mesmo senhor de terno azul fechou a minha passagem com o braço, dizendo: “Você não, você pode pagar” e fechou o portão rapidamente. É verdade, eu parecia mesmo que tinha dinheiro. Branquinho, de banho tomado e de roupinha arrumada. Naquela quinta-feira, minha mãe me colocou a calça e a camisa que eu só usava aos domingos para ir à igreja ou a alguma festa de aniversário. Eu estava todo limpinho e arrumadinho para ver Roberto Carlos. Por isso fui barrado, enquanto aqueles meninos negros, descamisados e de pés descalços, que historicamente sempre ficavam do lado de fora, naquele dia entraram. Fiquei ali alguns minutos paralisado na porta do estádio e só então me dei conta de que a noite estava muito fria. Do lado de fora, ouço os primeiros sons de bateria e guitarras. De repente, sinto o estádio estremecer numa explosão de gritos e aplausos. Era Roberto Carlos entrando em cena. E deu para ouvir a voz dele que chegava de longe, meio distorcida pelo vento que soprava forte. “Eu sou terrível/ e é bom parar/ porque agora vou decolar…” O show estava começando. Mas me lembrei da recomendação de minha mãe: voltar imediatamente se não conseguisse entrar. E, francamente, não dava mais para eu ficar ali.
Voltei para o ônibus que agora retornava vazio para o centro da cidade. Ninguém cantava canções do Roberto. Toda aquela galera de jovens felizes na viagem de ida estava agora lá dentro do estádio. Ali, naquele ônibus, apenas o motorista, o cobrador e eu. Os únicos que não puderam ver o show. Perdi o show que mais desejei assistir na vida. Para mim, até hoje, Roberto Carlos nunca foi a Vitória da Conquista. Rio de Janeiro, abril de 1996.
A entrevista com Roberto Carlos estava marcada para as três da tarde em sua casa, na avenida Portugal, na Urca. Era uma entrevista muito aguardada. Entrevistar Roberto Carlos tem sido tarefa muito difícil – como, aliás, é difícil entrevistar qualquer grande mito da cultura. E obter uma entrevista exclusiva em sua casa, mais difícil ainda. Foram poucos os jornalistas, principalmente a partir dos anos 80, que conseguiram entrevistar Roberto em sua casa. Mas lá ia eu, acompanhando o meu amigo jornalista Lula Branco Martins, que na época escrevia uma matéria para o Jornal do Brasil. Lula sabia da pesquisa que eu realizava há alguns anos sobre a obra de Roberto Carlos. E sabia da minha história com Roberto Carlos. Do show em Vitória da Conquista… Quando recebi o convite, meu coração disparou como daquela vez que vi o cartaz anunciando o show de Roberto Carlos em minha cidade. Eu e Lula montamos juntos a pauta da entrevista. Eu preparei questões mais históricas e ele questões mais atuais sobre o novo show de Roberto Carlos no Rio. No meio do caminho um imprevisto. Uma passeata de estudantes e funcionários da UFRJ, um punhado de bandeiras vermelhas do PT e, principalmente, do PC do B, com seu tradicional símbolo comunista quase roçando o vidro do automóvel. Trânsito parado, o tempo passando. “Não é possível que vamos perder a entrevista do Roberto por causa de uma foice e um martelo”, ironizou Lula ao volante do carro. A minha preocupação era outra e tinha um nome: Ivone Kassu, assessora de imprensa de Roberto Carlos. Em 1990, iniciei a pesquisa que resultou neste livro. Naquele ano, tentei pela primeira vez uma entrevista com Roberto Carlos. Liguei para o escritório de Ivone, a Kassu Produções, e consegui participar da coletiva daquele ano, no Copacabana Palace. Uma entrevista exclusiva, ela disse que não poderia ser. No ano seguinte, a coletiva foi no mesmo local, mas não consegui convite. Entrei no meio de jornalistas e fiquei ali escondido pelos cantos, evitando me encontrar com a assessora de imprensa. Em 1992, tentei novamente, e já me contentava em participar apenas da coletiva. Afinal, numa coletiva, em meio a uma série de perguntas absolutamente invariáveis através dos tempos, sempre podia surgir alguma informação nova, que eu poderia juntar às outras que estava acumulando. Não consegui falar com Ivone, nem convite. Fui assim mesmo para a coletiva do Imperator, no Méier, onde Roberto faria uma temporada. Dessa vez, não fiquei escondido pelos cantos, arrisquei falar com Ivone Kassu. Mas, assim que ela me viu, chamou um garçom e ordenou: “Por favor, não sirva nada a este rapaz. Ele não foi convidado para a coletiva”. E me virou as costas. Fiquei ali alguns minutos paralisado. Mais uma vez estava barrado de um evento com Roberto Carlos. Por tudo isso, o possível encontro com Ivone Kassu na portaria do prédio de Roberto me deixava ansioso. Como ela iria reagir? Mas, justamente por causa da passeata, chegamos 25 minutos atrasados, e o porteiro informou que a assessora havia acabado de subir. Ele ligou para o apartamento e veio a ordem para o Lula subir. Eu subi junto. No elevador, já fui pensando: “Benditas foice e martelo…”. Não tinha dúvida de que, se encontrasse Ivone Kassu na portaria, iria ser barrado mais uma vez. Mas agora o elevador subia e eu já estava a um passo da porta da sala de Roberto Carlos. A um passo de um encontro e de uma conversa frente a frente com o rei.
Roberto mora na cobertura de um prédio de cinco andares, todos com apenas um apartamento, situado de frente para a baía de Guanabara com o Cristo Redentor ao fundo. Quando saímos do elevador, a porta já estava aberta. Em pé, lá estava ele, Roberto Carlos vestido de Roberto Carlos, com seu tradicional traje de calça jeans azul, camisa branca e tênis brancos. Ivone estava sentada em um sofá de frente para a porta. Lula foi o primeiro a entrar, sendo apresentado a Roberto por ela. Foi logo pedindo desculpas pelo atraso e em seguida me apresentou. “Roberto, este é meu amigo Paulo César…” Roberto estendeu-me a mão efusivamente, fitando meus olhos, e disse: “Já nos conhecemos não é, bicho?”. Sem pestanejar, e também olhando no fundo dos seus olhos, respondi: “Com certeza, Roberto. Eu sou o Brasil”. A conversa iniciou de forma descontraída na ampla sala de visitas de seu apartamento decorado em tons azuis e brancos. Bom anfitrião, ele perguntou se queríamos beber alguma coisa, sugerindo água, café ou suco. Pedimos apenas água, que nos foi servida por uma empregada devidamente uniformizada de azul e branco. Durante todo o tempo que ali permaneci não pude evitar a lembrança daquele dia do show de Roberto em Vitória da Conquista. Agora, ali estava eu, na sala de sua casa, conversando com ele. É verdade que tinha entrado sem ter sido convidado. Mas só poderia mesmo ter sido daquela maneira: sem convite, sem ingresso, quase pela porta lateral. Como seria naquele show em Vitória da Conquista. Depois de uma outra amenidade, Lula Branco Martins deu início à entrevista, antes colocando o pequeno gravador na ponta da mesa de centro, para não intimidar muito Roberto, que não se sente à vontade na presença do gravador. Roberto permaneceu a maior parte do tempo encostado no braço direito do sofá. Diante da primeira pergunta, ele sorri e hesita. Mas depois percebi que sempre sorri e hesita quando alguém lhe faz uma pergunta. E responde lentamente, em seguida, procurando as palavras como se estivesse pensando no assunto pela primeira vez. Já diante de perguntas mais embaraçosas, Roberto pára, abaixa a cabeça, esfrega as mãos, olha para o alto, fica algum tempo em silêncio, e só então responde. Outras vezes, ele pára e olha fixamente algum ponto no espaço perdido antes de responder – sempre tomando um cuidado extremo para evitar mal-entendidos. Uma das últimas perguntas foi sobre a relação de Roberto com o palco, Lula então aproveitou o tema e disse: “Aliás, Roberto, o Paulo tem uma história antiga com você em um show em Vitória da Conquista”. Eu relatei tudo, passo a passo até o desfecho final. Roberto riu em algumas passagens, mas depois contraiu seu semblante e com aqueles seus olhos fundos cravados em mim, comentou: “Pôxa, bicho, que história bonita… bonita e triste”. Ao final, ele e Ivone Kassu nos acompanharam até a porta do elevador. Então a assessora abriu a sua agenda, nos entregou dois convites e falou pra mim sorrindo: “Agora você não vai mais ficar do lado de fora de um show de Roberto Carlos”.
Este livro é resultado de uma história de vida com Roberto Carlos, mais quinze anos de pesquisa em jornais, revistas, arquivos, além de quase duas centenas de entrevistas exclusivas. Para melhor entender a obra musical de Roberto Carlos é necessário conhecer a trajetória de Roberto Carlos. Ele canta o que vive e o que sente. Nas suas canções, fala de sua infância, de sua mãe, de seu pai, de sua tia, de seus amores. Mesmo numa canção como Caminhoneiro, que trata de um personagem distante de sua realidade de astro pop, o fermento que o inspirou a compô-la está nos caminhões que via passar na frente de sua casa em Cachoeiro e no desejo que o menino Roberto acalentou de um dia dirigir um veículo daqueles. Enfim, se outros cantores-compositores têm uma produção musical desvinculada de sua trajetória de vida, este não é o caso de Roberto Carlos. Sua obra é marcadamente pessoal e autobiográfica. “O maior mérito de meu pai é cantar a sua verdade. A verdade é o que importa. Se alguém quer conhecê-lo ou saber o que pensa ou já pensou, é só ouvir suas músicas”, diz seu filho Dudu Braga. Mas o caminho inverso também se faz necessário. Se alguém quer conhecer melhor suas canções e o que elas dizem, é necessário conhecer a trajetória de Roberto Carlos, sua história, seus embates, seus dramas, porque todos estão de certa forma retratados em sua obra. Este livro persegue este desafio, contar a trajetória artística de Roberto Carlos desde o início, canção por canção, detalhe por detalhe.
Este texto é o primeiro capítulo do livro Roberto Carlos em Detalhes, escrito pelo pesquisador, Historiador e Mestre em Memória Social Paulo César de Araújo, que foi proibido para venda, mas se encontra na “santa Internet” para a satisfação dos que gostam de biografias, música ou até mesmo de Roberto Carlos.
